03 março 2012

Fundamentalismo Nosso de Cada Dia

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“Cara, o que eu não curto na igreja é que o povo é muito fanático.”

Queria muito que fosse só na igreja. Um tempo atrás numa terra muito, muito longe daqui, que por acaso possui uma faculdade de psicologia, tive o privilégio de ser padrinho de um casamento. E foi tudo muito legal. 

Caminhando pro fim da festa, numa mesa repleta de futuros psicólogos e wanna be psicólogos (eu na segunda categoria), iniciei uma argumentação (não finalizada naquela noite):

“a ideia freudiana de recalque inicial é muito similar a de pecado original...”

Fui interrompido por uma onda verborrágica de um casal de militantes da psicanálise, espasmo verborrágico esse que durou até o fim da festa. Literalmente. Como alguns crentes que sentem que precisam defender Deus do ataque dos descrentes – como se Ele não fosse capaz de se virar sozinho - a defesa do seu sistema de crenças contra um POSSÍVEL ataque (o que, daquela vez, nem era) leva os fanáticos das mais diversas espécies a batalhas campais. 

Os dois conseguiram falar do último filme do Woody Allen, de como eu não deveria discutir religião com a guria pq a avó dela era muito católica e isso tornava ela uma especialista (minha parte babaca ficou muito tentada a sacar os anos gastos em um curso superior de teologia, mas preferi continuar bebendo) e um zilhão de outros argumentos, variando do palatável ao non-sense, do beligerantismo (devo ter criado essa palavra nesse exato momento) ao patronizing (sabe quando vc trata a pessoa como um ser inferior ou uma criança? Então, isso. Juro que quando lembrar como traduzir apropriadamente atualizo esse post). A única coisa que eles não fizeram – além de me amarrar numa pilastra e atear fogo – foi calar a boca e ouvir o argumento inteiro.

Ano passado uma outra criatura, que estava presente à mesa na ocasião do referido casamento, por algum motivo que me escapa totalmente agora, teve uma dúvida referente à teologia e eis que meu ícone do MSN espalhou seu brilho alaranjado. 

Para esclarecê-la (a dúvida) tive que explicar o conceito de pecado original na Bíblia e como isso reflete na concepção de homem que se tem no texto. E ele exclamou virtualmente: ah, por isso que vc disse que é similar ao conceito de recalque inicial de Freud.

Exatamente, viu como vc deixou de ser iluminado por minha sapiência durante tanto tempo por causa da ação defensiva verborrágica daquele povo?

Mas eles são legais. Aliás, os fanáticos fundamentalistas, em geral, são legais em todos os outros aspectos – menos quando se refere ao sistema de crenças que parece lhes conceder seu lugar no mundo.


(mesmo esquema)

Em geral.

Uma vez conheci (infelizmente) um palestrante “motivacional” (ele me motivou a querer tacar o sapato na testa dele, então acho que devo tirar as aspas, né?). Depois de gastar uma hora e meia recitando os clichês mais batidos, roubando as dinâmicas de um sem número de palestrantes fodões, e passando vídeos de péssima qualidade baixados do youtube, teve o jantar. E tive que enfrentar o tal jantar (para minha vergonha eterna, eu estava na organização do evento que teve aquele coiso como palestrante).

Passei meia hora com minha refeição rodando no meu estômago enquanto ouvia a criatura – que tinha acabado de falar besteira sem parar por uma hora e meia, podia ter dado uma folga, né? Mas o BPS (bullshit per second) dele é realmente alto. E ele falava como o Rio Grande do Sul é o melhor estado de todo o multiverso e como os gaúchos são superiores a tudo e todos, em todos os campos e áreas.

Amar sua terra é fundamental, e um certo bairrismo é até necessário. Mas tudo tem limite. O Rio Grande é primeiro mundo (qual parte do estado? Pq a última vez que chequei o RS tinha um dos índices de distribuição de renda mais desiguais do país, então sim, parte do estado deve ser primeiro mundo, a outra parte, no entanto) não é como o Nordeste (O Nordeste “atrasado”, “inculto” e com a história política que tem corresponde a mesma participação no PIB do Sul “civilizado” – e ambas são menos que notórias se comparadas à parcela do Sudeste). O Rio Grande teve o maior número de presidentes da história do país (não chequei, mas deve ser fato), e os gaúchos educaram o país (não-fato; mas minha parte babaca – ela é muito atuante, sabe? – sentiu-se realmente tentada a comentar sobre as duas últimas afirmações: "isso explica muita coisa").


(de novo)

A questão não é a filosofia ou a naturalidade da pessoa, é a pessoa. Existe essa tendência inerente de encontrar um sistema ordenador absoluto que explique tudo e todos – e, depois, de defender esse sistema com unhas e dentes, e empurrá-lo goela abaixo de todo o resto do mundo. 

Todo mundo deve ter potencial para isso, presumo.

Tem um livro curtinho que é uma preciosidade, e relativamente desconhecido, me parece. Chama-se “Homens de um livro só”, do Mateus Soares de Azevedo. Ele basicamente fala dessa atitude fanática-fundamentalista que transforma mesmo as coisas mais interessantes ou as mensagens mais humanas através do sectarismo e da intolerância. 

Um fundamentalista vê o mundo através de uma lente de NÓS e ELES. Na verdade, perdão, é nós VERSUS eles. O livro fala do fundamentalismo cristão e muçulmano, claro, mas também mostra como a psicanálise e o marxismo, por exemplo, são campos férteis pra fundamentalistas não-religiosos. 

Fala também do fundamentalismo pseudo científico que grassa nossa sociedade hoje. É o famoso “cientificamente provado”, que na maioria das vezes é enunciado por alguém que teria dificuldade em definir ciência ou de demonstrar qual foi a tal prova a que ele se refere. Mas isso não importa. Pq ele crê e a ciência é a Verdade (e o Caminho, by the way).


(e de novo)

Para reforçar que acredito que seja uma questão da pessoa, e não do sistema de crença específico, deixa eu falar sobre uma outra conhecida. Alguém que consegue ser fundamentalista na descrença. Ela é uma ateia proselitista. 

O que nunca fez muito sentido pra mim, já que não acreditar em algo é de boa, mas trabalhar ativamente para levar outras pessoas à não-crença já não me parece tão sensato.

“Mas a religião é um mal, o ópio do povo, vc não sabe da inquisição e todas as guerras por conta da crença fantasiosa e mitológica em um deus?!”. Tá, beleza, mas você realmente acredita que sua tia-avô que deu o azar de decidir passar o natal na sua casa vai condenar alguém a fogueira ou caminhar com uma multidão de crianças atrás dela até Jerusalém para retomar a Terra Santa? Qual o grande mal que extinguir a fé da velha vai evitar pra valer a pena tanta encheção de saco?! Ainda mais durante a ceia?!

Já vi muita coisa por causa de álcool. Gente que dança nu na praia por causa de álcool. Gente que é encontrada semi-desmaiada nas calçadas no carnaval de 2008. Gente que acorda (nu) na cama alheia. Gente que estraga o ménage a trois alheio (bom, pelo menos parcialmente alheio) e que recalca a frustração para sempre gerando as interações mais estranhas. Mas essa guria é pior: ela entra em modo de GUERRA À FÉ quando bebe. A pobre senhora, como todo mundo mais, diga-se de passagem, sofreu naquela noite.

Então, cara, não desgoste ou odeie a igreja por causa do fundamentalismo/fanatismo. Isso não é específico dela.

E você vai encontrar motivos muito melhores para desgostar da igreja.


Para os hereges que por acaso não conhecem, todas as tirinhas desse post são do Carlos Ruas que faz o Um Sábado Qualquer. O cara é um gênio dos quadrinhos e a lojinha ainda te dar a chance de ter um Deus (ou um diabo) todo seu.

Um comentário:

...loucos apontamentos disse...

Gente que é carregado alguns quilometros , mija na praia, toma banho de mar, e dorme pelado. Não, não foi o que eu achei de mais relevante no post. Belo texto.