25 março 2012

Eu Mato - Desafio Literário 2012


Fernando Meirelles, em um depoimento pro documentário “Lado B” comenta que muitas vezes quando um cineasta ou um wanna be cineasta está vendendo um projeto a ideia é incrível e todo mundo acha o cara um gênio. Aí vem o roteiro e o texto simplesmente não entrega o que foi prometido.

Pronto, é o que se passa com a desgraça desse livro. Tem umas ideias legais, mas a execução é péssima. Já li algum autor afirmando que as tragédias são o que tornam enredos interessantes. Que para escrever um livro atraente você deveria pensar na pior coisa que poderia acontecer a alguém que você ama e escrever sobre isso. O Giorgio Faletti deve ter visto a mesma citação em algum lugar, pq os personagens do livro dele constituem a maior coleção de gente fudida pela vida que se possa imaginar. Todo mundo tem uma passagem pelo manicômio, ou um caso de incesto, uma mulher despirocada e por ai vai. Ainda assim, os personagens conseguem permanecer bobos.

Não rola suspensão de descrença também, tudo soa forçado – tanto a trama quanto, e especialmente, os diálogos.

Em um filme do qual não me recordo o nome um aluno de uma turma de escrita criativa procura o professor no estacionamento para questioná-lo sobre a razão de ter recebido uma nota baixa em seu conto. Ao que o professor replica, mais ou menos isso: “é uma história de detetive de três páginas, com dois personagens, e um deles morre na segunda página”. 


É exatamente a sensação que tive enquanto lia "eu mato". 


O livro é tão tenebroso que tem um único personagem que poderia plausivelmente ser o assassino. Alguém com o poder dedutivo equivalente a algo entre uma pedra e uma samambaia de plástico, e que tenha lido um livrinho que seja de Lady Agatha,  vai descobrir o assassino em torno da página 40 e ter de ler dez vezes esse número para finalmente ter a (desnecessária) confirmação da identidade do meliante.

Sei que nem falei da história em si, mas não tenho condições emocionais pra tanto. Simplesmente não leia esse livro. Só para se ter noção de como não é pura implicância minha por ter perdido tanto tempo da minha vida lendo esse troço:

Assim que terminei de ler fui até o Sebinho – sebo oficial de Brasília – pra tentar me livrar do bendito do livro. Adivinha? Eles não tiveram interesse em comprar pq receberam tanto dessa porcaria que tem um estoque encalhado. Tanto que tão fazendo uma promoção do dito cujo.

O “eu mato” do título seria a frase pintada pelo assassino nos locais dos crimes. Na verdade é o próprio livro que fala com você: “Eu mato... de tédio”.



Avaliação: um potinho de iogurte que vc deixou na geladeira tempo demais, abre e dá um gole gigante, sem observar a data de validade espirada  a mais de um mês.

04 março 2012

As Esganadas - Desafio Literário 2012



O último livro do Jô Soares que eu gostei foi “O Xangô de Baker Street”, e suspeito que isso tenha sido mais pelo fato de eu ser um pirralho cabuloso orgulhoso de ter lido o livro todo em menos de 24 horas do que por qualquer mérito literário do livro em si. Ou talvez por eu ser um pirralho cabuloso que ficou realmente empolgado com a ideia de que Sherlock Holmes ia comer a guria do livro no museu em frente a múmia quando ela menstrua pelos poderes místicos do tal sarcófago – não menos importante notar que em minha imaginação juvenil a guria da história tinha a cara e corpo da Helena Ranaldi.

Quando ele lançou “O Homem que Matou Getúlio Vargas”, um par de anos depois, eu corri para comprar o livro, e fiquei extremamente decepcionado. O livro era muito bem pesquisado, cheio de curiosidades históricas etc, mas tive a sensação que Jô estava mais interessado em amealhar aqueles fatos interessantes e nos contar causos do que, efetivamente, contar uma história. O “Assassinatos na Academia Brasileira de Letras” foi sumariamente ignorado por minha pessoa em decorrência disso.

Como “As Esganadas” foi lançado na mesma época que eu fazia minha lista para o Desafio Literário 2012, e correspondia ao tema de março, serial killers, resolvi incluí-lo. Bom, a sinopse todo mundo já tá sabendo: um assassino serial atua no Rio de Janeiro nos anos 30, matando gordas. A propósito, a identidade do assassino já é informada desde o prólogo, não tem mistério no livro. Jô Soares disse em uma entrevista que não gosta de livros que se baseiam no mistério de “quem é o assassino?”.

Veríssimo disse sobre o livro que ele é uma ótima descrição dos costumes da década de 30. E é isso. Divertidinho, e só. Os personagens são rasos e Jô consegue descrever os crimes mais escabrosos sem causar o menor impacto no leitor. Zero de conexão emocional. E o “arco” de alguns personagens, como do anão, são simplesmente medonhos em sua banalidade. E você nunca se convence totalmente dos grandes poderes dedutivos do detetive português protagonista do romance.

E eis que, depois de ler o livro, achei uma outra entrevista do Jô Soares dizendo que para ele a pesquisa é a parte mais interessante. Novamente, o livro é muito bem pesquisado, e até didático, mas completamente insoso.

Avaliação: um cafezinho durante o trabalho, daqueles que você toma só pra matar o tempo

03 março 2012

Fundamentalismo Nosso de Cada Dia

(clique para ampliar)


“Cara, o que eu não curto na igreja é que o povo é muito fanático.”

Queria muito que fosse só na igreja. Um tempo atrás numa terra muito, muito longe daqui, que por acaso possui uma faculdade de psicologia, tive o privilégio de ser padrinho de um casamento. E foi tudo muito legal. 

Caminhando pro fim da festa, numa mesa repleta de futuros psicólogos e wanna be psicólogos (eu na segunda categoria), iniciei uma argumentação (não finalizada naquela noite):

“a ideia freudiana de recalque inicial é muito similar a de pecado original...”

Fui interrompido por uma onda verborrágica de um casal de militantes da psicanálise, espasmo verborrágico esse que durou até o fim da festa. Literalmente. Como alguns crentes que sentem que precisam defender Deus do ataque dos descrentes – como se Ele não fosse capaz de se virar sozinho - a defesa do seu sistema de crenças contra um POSSÍVEL ataque (o que, daquela vez, nem era) leva os fanáticos das mais diversas espécies a batalhas campais. 

Os dois conseguiram falar do último filme do Woody Allen, de como eu não deveria discutir religião com a guria pq a avó dela era muito católica e isso tornava ela uma especialista (minha parte babaca ficou muito tentada a sacar os anos gastos em um curso superior de teologia, mas preferi continuar bebendo) e um zilhão de outros argumentos, variando do palatável ao non-sense, do beligerantismo (devo ter criado essa palavra nesse exato momento) ao patronizing (sabe quando vc trata a pessoa como um ser inferior ou uma criança? Então, isso. Juro que quando lembrar como traduzir apropriadamente atualizo esse post). A única coisa que eles não fizeram – além de me amarrar numa pilastra e atear fogo – foi calar a boca e ouvir o argumento inteiro.

Ano passado uma outra criatura, que estava presente à mesa na ocasião do referido casamento, por algum motivo que me escapa totalmente agora, teve uma dúvida referente à teologia e eis que meu ícone do MSN espalhou seu brilho alaranjado. 

Para esclarecê-la (a dúvida) tive que explicar o conceito de pecado original na Bíblia e como isso reflete na concepção de homem que se tem no texto. E ele exclamou virtualmente: ah, por isso que vc disse que é similar ao conceito de recalque inicial de Freud.

Exatamente, viu como vc deixou de ser iluminado por minha sapiência durante tanto tempo por causa da ação defensiva verborrágica daquele povo?

Mas eles são legais. Aliás, os fanáticos fundamentalistas, em geral, são legais em todos os outros aspectos – menos quando se refere ao sistema de crenças que parece lhes conceder seu lugar no mundo.


(mesmo esquema)

Em geral.

Uma vez conheci (infelizmente) um palestrante “motivacional” (ele me motivou a querer tacar o sapato na testa dele, então acho que devo tirar as aspas, né?). Depois de gastar uma hora e meia recitando os clichês mais batidos, roubando as dinâmicas de um sem número de palestrantes fodões, e passando vídeos de péssima qualidade baixados do youtube, teve o jantar. E tive que enfrentar o tal jantar (para minha vergonha eterna, eu estava na organização do evento que teve aquele coiso como palestrante).

Passei meia hora com minha refeição rodando no meu estômago enquanto ouvia a criatura – que tinha acabado de falar besteira sem parar por uma hora e meia, podia ter dado uma folga, né? Mas o BPS (bullshit per second) dele é realmente alto. E ele falava como o Rio Grande do Sul é o melhor estado de todo o multiverso e como os gaúchos são superiores a tudo e todos, em todos os campos e áreas.

Amar sua terra é fundamental, e um certo bairrismo é até necessário. Mas tudo tem limite. O Rio Grande é primeiro mundo (qual parte do estado? Pq a última vez que chequei o RS tinha um dos índices de distribuição de renda mais desiguais do país, então sim, parte do estado deve ser primeiro mundo, a outra parte, no entanto) não é como o Nordeste (O Nordeste “atrasado”, “inculto” e com a história política que tem corresponde a mesma participação no PIB do Sul “civilizado” – e ambas são menos que notórias se comparadas à parcela do Sudeste). O Rio Grande teve o maior número de presidentes da história do país (não chequei, mas deve ser fato), e os gaúchos educaram o país (não-fato; mas minha parte babaca – ela é muito atuante, sabe? – sentiu-se realmente tentada a comentar sobre as duas últimas afirmações: "isso explica muita coisa").


(de novo)

A questão não é a filosofia ou a naturalidade da pessoa, é a pessoa. Existe essa tendência inerente de encontrar um sistema ordenador absoluto que explique tudo e todos – e, depois, de defender esse sistema com unhas e dentes, e empurrá-lo goela abaixo de todo o resto do mundo. 

Todo mundo deve ter potencial para isso, presumo.

Tem um livro curtinho que é uma preciosidade, e relativamente desconhecido, me parece. Chama-se “Homens de um livro só”, do Mateus Soares de Azevedo. Ele basicamente fala dessa atitude fanática-fundamentalista que transforma mesmo as coisas mais interessantes ou as mensagens mais humanas através do sectarismo e da intolerância. 

Um fundamentalista vê o mundo através de uma lente de NÓS e ELES. Na verdade, perdão, é nós VERSUS eles. O livro fala do fundamentalismo cristão e muçulmano, claro, mas também mostra como a psicanálise e o marxismo, por exemplo, são campos férteis pra fundamentalistas não-religiosos. 

Fala também do fundamentalismo pseudo científico que grassa nossa sociedade hoje. É o famoso “cientificamente provado”, que na maioria das vezes é enunciado por alguém que teria dificuldade em definir ciência ou de demonstrar qual foi a tal prova a que ele se refere. Mas isso não importa. Pq ele crê e a ciência é a Verdade (e o Caminho, by the way).


(e de novo)

Para reforçar que acredito que seja uma questão da pessoa, e não do sistema de crença específico, deixa eu falar sobre uma outra conhecida. Alguém que consegue ser fundamentalista na descrença. Ela é uma ateia proselitista. 

O que nunca fez muito sentido pra mim, já que não acreditar em algo é de boa, mas trabalhar ativamente para levar outras pessoas à não-crença já não me parece tão sensato.

“Mas a religião é um mal, o ópio do povo, vc não sabe da inquisição e todas as guerras por conta da crença fantasiosa e mitológica em um deus?!”. Tá, beleza, mas você realmente acredita que sua tia-avô que deu o azar de decidir passar o natal na sua casa vai condenar alguém a fogueira ou caminhar com uma multidão de crianças atrás dela até Jerusalém para retomar a Terra Santa? Qual o grande mal que extinguir a fé da velha vai evitar pra valer a pena tanta encheção de saco?! Ainda mais durante a ceia?!

Já vi muita coisa por causa de álcool. Gente que dança nu na praia por causa de álcool. Gente que é encontrada semi-desmaiada nas calçadas no carnaval de 2008. Gente que acorda (nu) na cama alheia. Gente que estraga o ménage a trois alheio (bom, pelo menos parcialmente alheio) e que recalca a frustração para sempre gerando as interações mais estranhas. Mas essa guria é pior: ela entra em modo de GUERRA À FÉ quando bebe. A pobre senhora, como todo mundo mais, diga-se de passagem, sofreu naquela noite.

Então, cara, não desgoste ou odeie a igreja por causa do fundamentalismo/fanatismo. Isso não é específico dela.

E você vai encontrar motivos muito melhores para desgostar da igreja.


Para os hereges que por acaso não conhecem, todas as tirinhas desse post são do Carlos Ruas que faz o Um Sábado Qualquer. O cara é um gênio dos quadrinhos e a lojinha ainda te dar a chance de ter um Deus (ou um diabo) todo seu.