04 fevereiro 2012

Marina - Desafio Literário 2012




Título alternativo desta resenha: uma lição de estatística

Em meados dos anos noventa um adolescente sucumbindo ao tédio, essa emoção que parece tão fundamental na nossa infância e adolescência, normalmente anunciada pelo brado de que “não tenho nada para fazer”, a saber, eu, esse que vos escreve, resolveu tentar jogar free cell no computador.

Agora que me toquei que devia ser Windows 95, e nem sou capaz de me recordar de qual era a máquina, mas são detalhes irrelevantes, o importante é que eu não tinha, como continuo sem ter, a mais vaga noção de como se joga free cell, qual o objetivo, as regras, como se pontua, nada.

Óbvio que perdi, me entediei, e fui me ocupar sabe Deus com que.

Entra um daqueles recordatórios onde lê-se “algum tempo depois” minha amantíssima progenitora, em uma atitude que não é seu estilo típico, irrompe em um surto de fúria, cuspindo fogo dos céus e bradando punição.

Como vim a descobrir, eventualmente e depois de certo apuro durante a tempestade emocional de frustação-barra-emputecimento, ela jogava free cell – e vinha mantendo uma estatística perfeita, o computador registrando cem por cento de vitórias.

E eu arruinara isso para sempre.

Pq esse é o problema com a perfeição: um único erro e tudo vai pro espaço, por mais que ela viesse a calejar os dedos em cliques e duplos cliques por horas a fio e madrugadas a dentro, o melhor que ela conseguiria seria um noventa e nove ponto nove por cento, tendendo à perfeição perdida mas nunca jamais alcançando-a.

Claro que ela mandou formatar o computador e reinstalar o Windows.

Obrigado por continuar lendo até aqui, confiando que, eventualmente escaparemos desse mar de verborragia e que estou, efetivamente, indo em direção a alguma coisa.

Assim como a maioria dos leitores brasileiros, conheci Carlos Ruiz Zafón um par de anos atrás quando A Sombra do Vento foi publicado no Brasil, em seguida li O Jogo do Anjo, e esses são livros perfeitos, mais até do que a falecida estatística do free cell da minha mãe, daqueles tão magníficos que você fica com vontade de mandar examinar imediatamente a rara criatura que diz que não gostou dos livros.

E Marina, bom, é menos que perfeito. Ela é o combo breaker.

Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário.

É um livro mais antigo de Zafón, mirando o público infanto-juvenil, com uma história seja cheia de sutilezas e nuances, e sombras e outras coisas que fazem parte da Barcelona de Zafón.

Óscar é o protagonista, um adolescente sobrepujado pelo tédio – viu, eu disse, é universal – do seu internato, que sai pelas ruas de Barcelona a “explorar”, e, eventualmente, ele conhece Marina.    

E claro que ele vai se apaixonar por ela, mas você também vai, isso é o de menos, a história é inteligente, os personagens são cativantes, os dramas são plausíveis, e mesmo o mais insignificante dos coadjuvantes mais insignificantes é ótimo.

O que mantém o livro como menos do que perfeito é que há duas histórias correndo em paralelo e a conexão entre elas é capenga, como se tivéssemos dois livros, um de amor e um de ação, facilmente separáveis e que sobreviveriam bem por si só, e a costura das duas histórias em Marina é frágil e um tanto forçada, especialmente quando foi Zafón, ainda que um Zafón bem mais novo e menos experiente, que escreveu o livro.


Avaliação: Um copo grande de leite bem gelado com ovomaltine, quase-quase cheio.

6 comentários:

Cacá disse...

Me diverti lendo a história toda... e me sinto envergonhada de não ter lido ainda este autor!

Lígia Barros disse...

Adorei a lição de estatística!

Eu li A sombra do vento faz um tempo e sou uma dessas pessoas que não o achou perfeito. O que significa que posso ler Marina sem nenhuma preocupação, porque o livro não vai arruinar qualquer perfeição, que bom.

livroseoutrasfelicidades disse...

Que jeito divertido de falar sobre o livro. Peguei-me rindo ao ler sua resenha...

Vivi disse...

Gostei da analogia. E como Cacá, sinto-me em falta com esse autor.

luciana disse...

fico feliz em saber que na foi so eu que achei o livro fraco.

Larissa, Lara, Lalá, .... disse...

Eu quero ler Marina principalmente porque morei em Barcelona. Boa escolha!