21 fevereiro 2012

Coraline - Desafio Literário 2012


Neil Gaiman é talvez muito provavelmente meu autor vivo favorito. (O Gabriel Garcia Marquez ainda tá vivo?). Coraline é um livro infantil e é a história de terror mais singela que eu já li. Coraline – não Caroline, por favor – é uma exploradora de nove anos de idade. E ela tem muito o que explorar já que ela e os pais mudaram-se recentemente para esse antigo casarão inglês que foi subdividido em apartamentos menores.

No apartamento acima do de Coraline um velho louco treina um circo de ratos, no apartamento abaixo duas antigas atrizes solteironas lêem o futuro em folhas de chá. Do lado de fora há uma antiga quadra de tênis, quase tomada pelo mato, e mais além um poço de quase meia milha de profundidade! Ela não deve brincar lá, pois o que cai ali dentro não vai conseguir sair.

Em um dia chuvoso, Coraline tem de se contentar com explorar o próprio apartamento. Inclusive a sala que ninguém usa pois é onde fica a mobília antiga, cara e desconfortável que foi herdada da avó de Coraline. E nessa sala tem uma porta. Uma porta que às vezes abre para uma parede de tijolos vermelhos. E às vezes abre para um corredor escuro.

Coraline é uma história simples, mas muito bem escrita. É aterrorizante e singela, como eu disse, e mais do que nas reviravoltas ou surpresas se mantem em pé pelo puro talento narrativo do seu autor.



Avaliação: Uma xícara de chá 5 sextos cheia, com um prato daqueles biscoitos ingleses de lata

04 fevereiro 2012

Marina - Desafio Literário 2012




Título alternativo desta resenha: uma lição de estatística

Em meados dos anos noventa um adolescente sucumbindo ao tédio, essa emoção que parece tão fundamental na nossa infância e adolescência, normalmente anunciada pelo brado de que “não tenho nada para fazer”, a saber, eu, esse que vos escreve, resolveu tentar jogar free cell no computador.

Agora que me toquei que devia ser Windows 95, e nem sou capaz de me recordar de qual era a máquina, mas são detalhes irrelevantes, o importante é que eu não tinha, como continuo sem ter, a mais vaga noção de como se joga free cell, qual o objetivo, as regras, como se pontua, nada.

Óbvio que perdi, me entediei, e fui me ocupar sabe Deus com que.

Entra um daqueles recordatórios onde lê-se “algum tempo depois” minha amantíssima progenitora, em uma atitude que não é seu estilo típico, irrompe em um surto de fúria, cuspindo fogo dos céus e bradando punição.

Como vim a descobrir, eventualmente e depois de certo apuro durante a tempestade emocional de frustação-barra-emputecimento, ela jogava free cell – e vinha mantendo uma estatística perfeita, o computador registrando cem por cento de vitórias.

E eu arruinara isso para sempre.

Pq esse é o problema com a perfeição: um único erro e tudo vai pro espaço, por mais que ela viesse a calejar os dedos em cliques e duplos cliques por horas a fio e madrugadas a dentro, o melhor que ela conseguiria seria um noventa e nove ponto nove por cento, tendendo à perfeição perdida mas nunca jamais alcançando-a.

Claro que ela mandou formatar o computador e reinstalar o Windows.

Obrigado por continuar lendo até aqui, confiando que, eventualmente escaparemos desse mar de verborragia e que estou, efetivamente, indo em direção a alguma coisa.

Assim como a maioria dos leitores brasileiros, conheci Carlos Ruiz Zafón um par de anos atrás quando A Sombra do Vento foi publicado no Brasil, em seguida li O Jogo do Anjo, e esses são livros perfeitos, mais até do que a falecida estatística do free cell da minha mãe, daqueles tão magníficos que você fica com vontade de mandar examinar imediatamente a rara criatura que diz que não gostou dos livros.

E Marina, bom, é menos que perfeito. Ela é o combo breaker.

Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário.

É um livro mais antigo de Zafón, mirando o público infanto-juvenil, com uma história seja cheia de sutilezas e nuances, e sombras e outras coisas que fazem parte da Barcelona de Zafón.

Óscar é o protagonista, um adolescente sobrepujado pelo tédio – viu, eu disse, é universal – do seu internato, que sai pelas ruas de Barcelona a “explorar”, e, eventualmente, ele conhece Marina.    

E claro que ele vai se apaixonar por ela, mas você também vai, isso é o de menos, a história é inteligente, os personagens são cativantes, os dramas são plausíveis, e mesmo o mais insignificante dos coadjuvantes mais insignificantes é ótimo.

O que mantém o livro como menos do que perfeito é que há duas histórias correndo em paralelo e a conexão entre elas é capenga, como se tivéssemos dois livros, um de amor e um de ação, facilmente separáveis e que sobreviveriam bem por si só, e a costura das duas histórias em Marina é frágil e um tanto forçada, especialmente quando foi Zafón, ainda que um Zafón bem mais novo e menos experiente, que escreveu o livro.


Avaliação: Um copo grande de leite bem gelado com ovomaltine, quase-quase cheio.