22 janeiro 2012

A Mesa Voadora - Desafio Literário 2012



Luis Fernando Veríssimo é tão bom que nem tem graça resenhar. Desde que a Objetiva tornou-se editora de Veríssimo, no início do século, tem publicado coletâneas do autor, selecionando crônicas do seu longo acervo agrupando-as linhas temáticas. Em “A Mesa Voadora” o fio condutor é a comida.

“No fim, tudo se deve à comida insossa. Quando os mongóis e os turcos interromperam o suprimento por terra dos condimentos do Oriente, a era dos descobrimentos começou. A Europa descobriu que não podia viver sem tempero e lançou-se ao mar e à conquista de rotas alternativas para o cominho e, por acidente, outros mundos.

A América é um produto do paladar europeu. Toda a grande aventura imperial foi aromática, tangida pela pimenta e o gengibre, a hortelã e a noz-moscada. Homens rudes lançavam-se contra o desconhecido e a morte pelo rosmaninho.

Outras fomes eram servidas, claro. A de ouro, a de prata, a de espaço. E a de sexo, pois as mulheres européias também eram sem sal.”

Veríssimo, como de hábito, é soberbo. Seja analisando friamente nosso comportamento bélico ao redor de uma mesa de buffet, ou salientando a natureza canibal inerente à espécie humana. Ou ainda discutindo as difíceis decisões que a tensão entre o prazer do bem comer e nossa consciência nos força a tomar:

“Não experimentei ainda a fondue de camarão porque precisei escolher entre comprar alguns quilos de camarão gigante e pagar a educação dos meus filhos.”

E entre digressões sobre globalização, e a plastificação e uniformidade que esta promove, acabando com os pastéis de beira de estrada que tendem a ser tão bons quanto pior for a aparência do estabelecimento; ou elocubrações sobre a similitude entre uma refeição completa e a história da vida sobre a terra, iniciada no caldo primal da sopa até a sobremesa final – nossa contemporaneidade, com nenhum valor nutritivo mas com uma apresentação magnífica “simbolizando o engenho e a futilidade humana”; encontra-se sintetizada a revolta coletiva contra as afirmações dos especialistas em nutrição, que mudam de parecer quase todo mês.

Ora tomate é saudável, ora é cancerígeno; carboidrato sim, carboidrato nem pensar! E o ovo, vilão por tanto tempo, de repente vira parte fundamental de um cardápio saudável! E quanto a todos os ovos que deixamos de comer em nome da boa saúde?! Quem responde por esse sacrifício?! Afinal

“Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso correrá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada.”



PS. - Dentro do tema comida, e tb do Veríssimo, é altamente recomendado o nonsense hilário de "Clube dos Anjos".

Avaliação: Dois pastéis de beira de estrada com um copo de caldo de cana!

Um comentário:

Ju disse...

Ah, o ovo frito!! Também o idolatro, e só isso já justifica a vontade imensa que estou sentindo agora de ler o livro! rs... Gostei da resenha!
Criei um blog há menos de um mês, ficarei infinitamente feliz se você puder visitá-lo e, quem sabe, segui-lo e comentar em alguma postagem (entrepalcoselivros.blogspot.com)! Ótima semana pra você! :)