25 novembro 2012

Das Vespas



- Me perdoa?
- Cedo demais pra isso.

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Uma pesquisa realizada no Brasil há alguns anos descobriu que as vespas, a.k.a. maribondo, a.k.a. abelha zumbi, não passam a vida necessariamente na colmeia onde nasceram, mas naquela com a qual tem maior nível de identificação física. A pesquisa descobriu que vespas nascidas na colmeia “A” mas cujas características físicas eram mais semelhantes – por pura randomicidade genética – às das vespas da colmeia “B” acabavam por migrar e se inserir na segunda colmeia.

Pesquisas subsequentes produziram evidência científica substancial de que o mesmo fenômeno se dá em humanos. Em uma ilhota no Maranhão onde existem três comunidades ribeirinhas descobriu-se que as pessoas agrupavam-se nessas comunidades, claro que de maneira inconsciente e instintiva, a partir das similitudes físicas e não a partir dos laços consanguíneos, como seria culturalmente esperado. Outra pesquisa realizada com alunos de uma turma de maternal foi capaz de prever, no primeiro dia de aula quando as crianças não conheciam umas às outras, quais seriam os grupos de amizade que se formariam e consolidariam ao longo daquele ano.

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Quando se faz promessas demais é difícil manter todos os malabares no ar.

Por outro lado também é difícil criticar quando uma vespa está migrando para a colmeia da qual ela verdadeiramente faz parte. 

22 julho 2012

Indo ao Teatro # 01



Daí você vai ao teatro. Como todo mundo acha muito antissocial, estranho e chato pra caralho seu hábito de ir para teatro/cinema sozinho, você decide, dessa vez, só dessa vezinha ser uma pessoa semi-normal e ir acompanhado. 

Ir ao teatro/cinema sozinho basicamente evita que você tenha de atrapalhar seu filme/peça com interações sociais inadvertidas em momentos inoportunos.

Você socializa o máximo possível com o grupo com que você foi ao espetáculo antes deste começar. Se bem que a bem da verdade o fato de que jogar angry birds naquele momento ser muito mais divertido do que acompanhar a conversa deveria servir de alerta para como vai ser o restante da noite.

Mas você ignora os sinais. Afinal, matar porcos verdes tacando passarinhos kamikazes neles é divertido para cacete. Fica difícil para qualquer um competir com esse nível de entretenimento primal.         

Finalmente começa a apresentação. E eis que você descobre que o seu ingresso veio premiado! Ele dá direito à versão comentada do evento! 

Você se dá conta disso na medida que duas das suas acompanhantes embalam num debate metafísico baseado na mais pura necessidade de narrar o que todo mundo acabou de ver no palco.    

(Mais ou menos como aqueles animes da década de 90, em especial o dos cavaleiros de sexualidade duvidosa que defendiam a deusa mais tapada de todos os éons.)

“Ele tá apaixonado por ela!" Tu jura? Deve ser por isso que o ator se ajoelhou com um buquê de flores e cantou olhando em direção à atriz!     

Cara, ainda bem que vocês tão aqui para me esclarecer, se não eu ia tá perdido achando que ele era um super-espião internacional prestes a espirrar ácido no rosto da bela dama com um mecanismo escondido naquela rosa protuberante do buquê! É uma história de amor e eu achando que era adaptação de 007!     

Mas você está comprometido em ser sociável e educado - embora já esteja começando a se questionar o por quê disso mesmo. Você suporta sua hora de tortura caladinho, até que, já nas escadarias saindo do teatro, justo quando você estava todo orgulhoso do seu desempenho social (bem como da sua capacidade de se sacrificar pelo Bem Comum) uma das criaturas falantes sente a inevitável necessidade de perguntar sua opinião sobre o espetáculo.                         

Ela acha que você não gostou. Provavelmente por que você estava calado demais.   

Isso não se faz. Com seu autocontrole esticado ad extremis, antes de perceber você está  tornando explícita toda a irritação contida na última hora com o matraquear incessante.

E a reação da criatura? "ah, todo mundo sobreviveu!"    

Como todo mundo sobreviveu, mesmo depois desse comentário, você deve ficar orgulhoso de si mesmo.

Mas surge uma curiosidade antropológica sobre o local de onde surge esse tipo de ser que considera sobreviver ao teatro critério de qualidade de entretenimento.

Por acaso ela vive em uma zona de conflito onde ir ao teatro torna-se uma declaração pública de coragem, ousadia e liberdade política dados os riscos de um atentado à bomba?!

É teatro, não uma luta mano a mano com o Chuck Norris! Sobreviver é a regra! (Com exceção do Abraham Lincoln, claro.)      

Nesse momento você jura solenemente nunca mais abrir mão dos seus hábitos esdrúxulos. Eles lhe garantem sanidade.       

E também faz um voto solene de temer eternamente o lugar que gera essas criaturas.

16 julho 2012

30



I've just seen a face I can't forget the time or place where we just met,
She's just the girl for me and I want all the world to see we've met.
Mm mm
Had it been another day I might have looked the other ways and,
I'd have never been aware but as it is I'll dream of her tonight.
Da da
Falling, yes I'm falling,
And she keeps calling me back again.
I have never known the like of this I've been alone and I have,
Missed things and kept out of sight for other girls were never quite like this.
Da da
Falling, yes I'm falling,
And she keeps calling me back again.
Falling, yes I'm falling,
And she keeps calling me back again.



(um dia etílico de atraso)

25 março 2012

Eu Mato - Desafio Literário 2012


Fernando Meirelles, em um depoimento pro documentário “Lado B” comenta que muitas vezes quando um cineasta ou um wanna be cineasta está vendendo um projeto a ideia é incrível e todo mundo acha o cara um gênio. Aí vem o roteiro e o texto simplesmente não entrega o que foi prometido.

Pronto, é o que se passa com a desgraça desse livro. Tem umas ideias legais, mas a execução é péssima. Já li algum autor afirmando que as tragédias são o que tornam enredos interessantes. Que para escrever um livro atraente você deveria pensar na pior coisa que poderia acontecer a alguém que você ama e escrever sobre isso. O Giorgio Faletti deve ter visto a mesma citação em algum lugar, pq os personagens do livro dele constituem a maior coleção de gente fudida pela vida que se possa imaginar. Todo mundo tem uma passagem pelo manicômio, ou um caso de incesto, uma mulher despirocada e por ai vai. Ainda assim, os personagens conseguem permanecer bobos.

Não rola suspensão de descrença também, tudo soa forçado – tanto a trama quanto, e especialmente, os diálogos.

Em um filme do qual não me recordo o nome um aluno de uma turma de escrita criativa procura o professor no estacionamento para questioná-lo sobre a razão de ter recebido uma nota baixa em seu conto. Ao que o professor replica, mais ou menos isso: “é uma história de detetive de três páginas, com dois personagens, e um deles morre na segunda página”. 


É exatamente a sensação que tive enquanto lia "eu mato". 


O livro é tão tenebroso que tem um único personagem que poderia plausivelmente ser o assassino. Alguém com o poder dedutivo equivalente a algo entre uma pedra e uma samambaia de plástico, e que tenha lido um livrinho que seja de Lady Agatha,  vai descobrir o assassino em torno da página 40 e ter de ler dez vezes esse número para finalmente ter a (desnecessária) confirmação da identidade do meliante.

Sei que nem falei da história em si, mas não tenho condições emocionais pra tanto. Simplesmente não leia esse livro. Só para se ter noção de como não é pura implicância minha por ter perdido tanto tempo da minha vida lendo esse troço:

Assim que terminei de ler fui até o Sebinho – sebo oficial de Brasília – pra tentar me livrar do bendito do livro. Adivinha? Eles não tiveram interesse em comprar pq receberam tanto dessa porcaria que tem um estoque encalhado. Tanto que tão fazendo uma promoção do dito cujo.

O “eu mato” do título seria a frase pintada pelo assassino nos locais dos crimes. Na verdade é o próprio livro que fala com você: “Eu mato... de tédio”.



Avaliação: um potinho de iogurte que vc deixou na geladeira tempo demais, abre e dá um gole gigante, sem observar a data de validade espirada  a mais de um mês.

04 março 2012

As Esganadas - Desafio Literário 2012



O último livro do Jô Soares que eu gostei foi “O Xangô de Baker Street”, e suspeito que isso tenha sido mais pelo fato de eu ser um pirralho cabuloso orgulhoso de ter lido o livro todo em menos de 24 horas do que por qualquer mérito literário do livro em si. Ou talvez por eu ser um pirralho cabuloso que ficou realmente empolgado com a ideia de que Sherlock Holmes ia comer a guria do livro no museu em frente a múmia quando ela menstrua pelos poderes místicos do tal sarcófago – não menos importante notar que em minha imaginação juvenil a guria da história tinha a cara e corpo da Helena Ranaldi.

Quando ele lançou “O Homem que Matou Getúlio Vargas”, um par de anos depois, eu corri para comprar o livro, e fiquei extremamente decepcionado. O livro era muito bem pesquisado, cheio de curiosidades históricas etc, mas tive a sensação que Jô estava mais interessado em amealhar aqueles fatos interessantes e nos contar causos do que, efetivamente, contar uma história. O “Assassinatos na Academia Brasileira de Letras” foi sumariamente ignorado por minha pessoa em decorrência disso.

Como “As Esganadas” foi lançado na mesma época que eu fazia minha lista para o Desafio Literário 2012, e correspondia ao tema de março, serial killers, resolvi incluí-lo. Bom, a sinopse todo mundo já tá sabendo: um assassino serial atua no Rio de Janeiro nos anos 30, matando gordas. A propósito, a identidade do assassino já é informada desde o prólogo, não tem mistério no livro. Jô Soares disse em uma entrevista que não gosta de livros que se baseiam no mistério de “quem é o assassino?”.

Veríssimo disse sobre o livro que ele é uma ótima descrição dos costumes da década de 30. E é isso. Divertidinho, e só. Os personagens são rasos e Jô consegue descrever os crimes mais escabrosos sem causar o menor impacto no leitor. Zero de conexão emocional. E o “arco” de alguns personagens, como do anão, são simplesmente medonhos em sua banalidade. E você nunca se convence totalmente dos grandes poderes dedutivos do detetive português protagonista do romance.

E eis que, depois de ler o livro, achei uma outra entrevista do Jô Soares dizendo que para ele a pesquisa é a parte mais interessante. Novamente, o livro é muito bem pesquisado, e até didático, mas completamente insoso.

Avaliação: um cafezinho durante o trabalho, daqueles que você toma só pra matar o tempo

03 março 2012

Fundamentalismo Nosso de Cada Dia

(clique para ampliar)


“Cara, o que eu não curto na igreja é que o povo é muito fanático.”

Queria muito que fosse só na igreja. Um tempo atrás numa terra muito, muito longe daqui, que por acaso possui uma faculdade de psicologia, tive o privilégio de ser padrinho de um casamento. E foi tudo muito legal. 

Caminhando pro fim da festa, numa mesa repleta de futuros psicólogos e wanna be psicólogos (eu na segunda categoria), iniciei uma argumentação (não finalizada naquela noite):

“a ideia freudiana de recalque inicial é muito similar a de pecado original...”

Fui interrompido por uma onda verborrágica de um casal de militantes da psicanálise, espasmo verborrágico esse que durou até o fim da festa. Literalmente. Como alguns crentes que sentem que precisam defender Deus do ataque dos descrentes – como se Ele não fosse capaz de se virar sozinho - a defesa do seu sistema de crenças contra um POSSÍVEL ataque (o que, daquela vez, nem era) leva os fanáticos das mais diversas espécies a batalhas campais. 

Os dois conseguiram falar do último filme do Woody Allen, de como eu não deveria discutir religião com a guria pq a avó dela era muito católica e isso tornava ela uma especialista (minha parte babaca ficou muito tentada a sacar os anos gastos em um curso superior de teologia, mas preferi continuar bebendo) e um zilhão de outros argumentos, variando do palatável ao non-sense, do beligerantismo (devo ter criado essa palavra nesse exato momento) ao patronizing (sabe quando vc trata a pessoa como um ser inferior ou uma criança? Então, isso. Juro que quando lembrar como traduzir apropriadamente atualizo esse post). A única coisa que eles não fizeram – além de me amarrar numa pilastra e atear fogo – foi calar a boca e ouvir o argumento inteiro.

Ano passado uma outra criatura, que estava presente à mesa na ocasião do referido casamento, por algum motivo que me escapa totalmente agora, teve uma dúvida referente à teologia e eis que meu ícone do MSN espalhou seu brilho alaranjado. 

Para esclarecê-la (a dúvida) tive que explicar o conceito de pecado original na Bíblia e como isso reflete na concepção de homem que se tem no texto. E ele exclamou virtualmente: ah, por isso que vc disse que é similar ao conceito de recalque inicial de Freud.

Exatamente, viu como vc deixou de ser iluminado por minha sapiência durante tanto tempo por causa da ação defensiva verborrágica daquele povo?

Mas eles são legais. Aliás, os fanáticos fundamentalistas, em geral, são legais em todos os outros aspectos – menos quando se refere ao sistema de crenças que parece lhes conceder seu lugar no mundo.


(mesmo esquema)

Em geral.

Uma vez conheci (infelizmente) um palestrante “motivacional” (ele me motivou a querer tacar o sapato na testa dele, então acho que devo tirar as aspas, né?). Depois de gastar uma hora e meia recitando os clichês mais batidos, roubando as dinâmicas de um sem número de palestrantes fodões, e passando vídeos de péssima qualidade baixados do youtube, teve o jantar. E tive que enfrentar o tal jantar (para minha vergonha eterna, eu estava na organização do evento que teve aquele coiso como palestrante).

Passei meia hora com minha refeição rodando no meu estômago enquanto ouvia a criatura – que tinha acabado de falar besteira sem parar por uma hora e meia, podia ter dado uma folga, né? Mas o BPS (bullshit per second) dele é realmente alto. E ele falava como o Rio Grande do Sul é o melhor estado de todo o multiverso e como os gaúchos são superiores a tudo e todos, em todos os campos e áreas.

Amar sua terra é fundamental, e um certo bairrismo é até necessário. Mas tudo tem limite. O Rio Grande é primeiro mundo (qual parte do estado? Pq a última vez que chequei o RS tinha um dos índices de distribuição de renda mais desiguais do país, então sim, parte do estado deve ser primeiro mundo, a outra parte, no entanto) não é como o Nordeste (O Nordeste “atrasado”, “inculto” e com a história política que tem corresponde a mesma participação no PIB do Sul “civilizado” – e ambas são menos que notórias se comparadas à parcela do Sudeste). O Rio Grande teve o maior número de presidentes da história do país (não chequei, mas deve ser fato), e os gaúchos educaram o país (não-fato; mas minha parte babaca – ela é muito atuante, sabe? – sentiu-se realmente tentada a comentar sobre as duas últimas afirmações: "isso explica muita coisa").


(de novo)

A questão não é a filosofia ou a naturalidade da pessoa, é a pessoa. Existe essa tendência inerente de encontrar um sistema ordenador absoluto que explique tudo e todos – e, depois, de defender esse sistema com unhas e dentes, e empurrá-lo goela abaixo de todo o resto do mundo. 

Todo mundo deve ter potencial para isso, presumo.

Tem um livro curtinho que é uma preciosidade, e relativamente desconhecido, me parece. Chama-se “Homens de um livro só”, do Mateus Soares de Azevedo. Ele basicamente fala dessa atitude fanática-fundamentalista que transforma mesmo as coisas mais interessantes ou as mensagens mais humanas através do sectarismo e da intolerância. 

Um fundamentalista vê o mundo através de uma lente de NÓS e ELES. Na verdade, perdão, é nós VERSUS eles. O livro fala do fundamentalismo cristão e muçulmano, claro, mas também mostra como a psicanálise e o marxismo, por exemplo, são campos férteis pra fundamentalistas não-religiosos. 

Fala também do fundamentalismo pseudo científico que grassa nossa sociedade hoje. É o famoso “cientificamente provado”, que na maioria das vezes é enunciado por alguém que teria dificuldade em definir ciência ou de demonstrar qual foi a tal prova a que ele se refere. Mas isso não importa. Pq ele crê e a ciência é a Verdade (e o Caminho, by the way).


(e de novo)

Para reforçar que acredito que seja uma questão da pessoa, e não do sistema de crença específico, deixa eu falar sobre uma outra conhecida. Alguém que consegue ser fundamentalista na descrença. Ela é uma ateia proselitista. 

O que nunca fez muito sentido pra mim, já que não acreditar em algo é de boa, mas trabalhar ativamente para levar outras pessoas à não-crença já não me parece tão sensato.

“Mas a religião é um mal, o ópio do povo, vc não sabe da inquisição e todas as guerras por conta da crença fantasiosa e mitológica em um deus?!”. Tá, beleza, mas você realmente acredita que sua tia-avô que deu o azar de decidir passar o natal na sua casa vai condenar alguém a fogueira ou caminhar com uma multidão de crianças atrás dela até Jerusalém para retomar a Terra Santa? Qual o grande mal que extinguir a fé da velha vai evitar pra valer a pena tanta encheção de saco?! Ainda mais durante a ceia?!

Já vi muita coisa por causa de álcool. Gente que dança nu na praia por causa de álcool. Gente que é encontrada semi-desmaiada nas calçadas no carnaval de 2008. Gente que acorda (nu) na cama alheia. Gente que estraga o ménage a trois alheio (bom, pelo menos parcialmente alheio) e que recalca a frustração para sempre gerando as interações mais estranhas. Mas essa guria é pior: ela entra em modo de GUERRA À FÉ quando bebe. A pobre senhora, como todo mundo mais, diga-se de passagem, sofreu naquela noite.

Então, cara, não desgoste ou odeie a igreja por causa do fundamentalismo/fanatismo. Isso não é específico dela.

E você vai encontrar motivos muito melhores para desgostar da igreja.


Para os hereges que por acaso não conhecem, todas as tirinhas desse post são do Carlos Ruas que faz o Um Sábado Qualquer. O cara é um gênio dos quadrinhos e a lojinha ainda te dar a chance de ter um Deus (ou um diabo) todo seu.

21 fevereiro 2012

Coraline - Desafio Literário 2012


Neil Gaiman é talvez muito provavelmente meu autor vivo favorito. (O Gabriel Garcia Marquez ainda tá vivo?). Coraline é um livro infantil e é a história de terror mais singela que eu já li. Coraline – não Caroline, por favor – é uma exploradora de nove anos de idade. E ela tem muito o que explorar já que ela e os pais mudaram-se recentemente para esse antigo casarão inglês que foi subdividido em apartamentos menores.

No apartamento acima do de Coraline um velho louco treina um circo de ratos, no apartamento abaixo duas antigas atrizes solteironas lêem o futuro em folhas de chá. Do lado de fora há uma antiga quadra de tênis, quase tomada pelo mato, e mais além um poço de quase meia milha de profundidade! Ela não deve brincar lá, pois o que cai ali dentro não vai conseguir sair.

Em um dia chuvoso, Coraline tem de se contentar com explorar o próprio apartamento. Inclusive a sala que ninguém usa pois é onde fica a mobília antiga, cara e desconfortável que foi herdada da avó de Coraline. E nessa sala tem uma porta. Uma porta que às vezes abre para uma parede de tijolos vermelhos. E às vezes abre para um corredor escuro.

Coraline é uma história simples, mas muito bem escrita. É aterrorizante e singela, como eu disse, e mais do que nas reviravoltas ou surpresas se mantem em pé pelo puro talento narrativo do seu autor.



Avaliação: Uma xícara de chá 5 sextos cheia, com um prato daqueles biscoitos ingleses de lata

04 fevereiro 2012

Marina - Desafio Literário 2012




Título alternativo desta resenha: uma lição de estatística

Em meados dos anos noventa um adolescente sucumbindo ao tédio, essa emoção que parece tão fundamental na nossa infância e adolescência, normalmente anunciada pelo brado de que “não tenho nada para fazer”, a saber, eu, esse que vos escreve, resolveu tentar jogar free cell no computador.

Agora que me toquei que devia ser Windows 95, e nem sou capaz de me recordar de qual era a máquina, mas são detalhes irrelevantes, o importante é que eu não tinha, como continuo sem ter, a mais vaga noção de como se joga free cell, qual o objetivo, as regras, como se pontua, nada.

Óbvio que perdi, me entediei, e fui me ocupar sabe Deus com que.

Entra um daqueles recordatórios onde lê-se “algum tempo depois” minha amantíssima progenitora, em uma atitude que não é seu estilo típico, irrompe em um surto de fúria, cuspindo fogo dos céus e bradando punição.

Como vim a descobrir, eventualmente e depois de certo apuro durante a tempestade emocional de frustação-barra-emputecimento, ela jogava free cell – e vinha mantendo uma estatística perfeita, o computador registrando cem por cento de vitórias.

E eu arruinara isso para sempre.

Pq esse é o problema com a perfeição: um único erro e tudo vai pro espaço, por mais que ela viesse a calejar os dedos em cliques e duplos cliques por horas a fio e madrugadas a dentro, o melhor que ela conseguiria seria um noventa e nove ponto nove por cento, tendendo à perfeição perdida mas nunca jamais alcançando-a.

Claro que ela mandou formatar o computador e reinstalar o Windows.

Obrigado por continuar lendo até aqui, confiando que, eventualmente escaparemos desse mar de verborragia e que estou, efetivamente, indo em direção a alguma coisa.

Assim como a maioria dos leitores brasileiros, conheci Carlos Ruiz Zafón um par de anos atrás quando A Sombra do Vento foi publicado no Brasil, em seguida li O Jogo do Anjo, e esses são livros perfeitos, mais até do que a falecida estatística do free cell da minha mãe, daqueles tão magníficos que você fica com vontade de mandar examinar imediatamente a rara criatura que diz que não gostou dos livros.

E Marina, bom, é menos que perfeito. Ela é o combo breaker.

Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário.

É um livro mais antigo de Zafón, mirando o público infanto-juvenil, com uma história seja cheia de sutilezas e nuances, e sombras e outras coisas que fazem parte da Barcelona de Zafón.

Óscar é o protagonista, um adolescente sobrepujado pelo tédio – viu, eu disse, é universal – do seu internato, que sai pelas ruas de Barcelona a “explorar”, e, eventualmente, ele conhece Marina.    

E claro que ele vai se apaixonar por ela, mas você também vai, isso é o de menos, a história é inteligente, os personagens são cativantes, os dramas são plausíveis, e mesmo o mais insignificante dos coadjuvantes mais insignificantes é ótimo.

O que mantém o livro como menos do que perfeito é que há duas histórias correndo em paralelo e a conexão entre elas é capenga, como se tivéssemos dois livros, um de amor e um de ação, facilmente separáveis e que sobreviveriam bem por si só, e a costura das duas histórias em Marina é frágil e um tanto forçada, especialmente quando foi Zafón, ainda que um Zafón bem mais novo e menos experiente, que escreveu o livro.


Avaliação: Um copo grande de leite bem gelado com ovomaltine, quase-quase cheio.

24 janeiro 2012

We Can Be Heroes


A África enfrenta fome de proporções catastróficas devido a pior seca dos últimos 60 anos. Agências internacionais de notícias alegam que a situação foi agravada pela demora da assistência dos órgãos internacionais ligados a ONU.

A DC Comics (para os não-nerds: a editora de quadrinhos responsável pela publicação de Batman, Superman etc.) se comprometeu a dobrar o valor de todas as doações arrecadadas através desse site: http://www.joinwecanbeheroes.org/

Vale a pena colaborar com o marketing social deles, divulgar a notícia e, pra quem não tiver um cartão de crédito internacional (meu caso), descolar um emprestado.

23 janeiro 2012

Julie & Julia - Desafio Literário 2012




Aos 29 não sou alheio às crises existenciais que Julie Powell enfrentava no tempo em que o livro se passa. Especialmente a sensação que a juventude se foi e a sensação difusa de o-que-foi-mesmo-que-eu-fiz-com-esse-terço-da-minha-vida (no caso da maioria das pessoas, como pretendo atingir os 120, pelo menos – vaso ruim não quebra, são os primeiros 25%).

Acho que alguém diz em RENT (ou eu li isso na época em que vi RENT, ou pensei isso enquanto assistia o filme, sei lá) que nós nos salvamos das maneiras mais estranhas. Basicamente é isso que Julie faz. Aos 29, casada, morando em um apartamento que ela detesta, working a job she hates (referência obrigatória a “Clube da Luta”), ela decide cozinhar todo o meio milhar de receitas de um livro de culinária francesa, escrito por Julia Child, que é tipo a Ofélia gringa. E fazer isso em um ano. E registrar a experiência em um blog.

De muitas maneiras a experiência mudou a vida de Julie, de algumas grandiosas, outras sutis. Muita coisa mudou para poder permanecer a mesma – como tem que ser, como tenho afirmado seguidamente =P. (Ok, usei um emoticon de linguinha no meio de um post, acho que são as tais das vodkas-tônicas que aprendi com Julie).

Apesar de tudo isso, e discordando da maioria das resenhas sobre o livro do Desafio Literário desse mês, achei o livro só mais ou menos. Para começar, achei o filme melhor. O que é extremamente raro, já que a experiência condensada do cinema costuma não se equiparar as miríades de possibilidades da palavra escrita. Nesse caso, essa condensação é meio que uma bênção. O livro é mais ou menos, divertidozinho, mas alugar o filme vai ser mais legal. E evita de você ler sobre o trocentésimo ataque histérico de Julie.

O fato é que não é um livro extremamente inspirador – embora a experiência que lhe deu origem o seja; os personagens não são cativantes – nem Julie nem Júlia, diga-se de passagem; a escrita é só razoável, nenhuma qualidade literária pungente etc. Mas é bonzinho.

Eu queria muito gostar dele, pq gosto de pessoas de quase trinta se salvando através de projetos insanos e inusitados. Mas não rolou.

No entanto, aprendi a preparar Vodkas-Tônicas ;) (e lá vai outro emoticon)


Avaliação: Um copo de vodka-tônica pela metade (veja o filme e será meio cheio, leia o livro e será meio vazio)

22 janeiro 2012

A Mesa Voadora - Desafio Literário 2012



Luis Fernando Veríssimo é tão bom que nem tem graça resenhar. Desde que a Objetiva tornou-se editora de Veríssimo, no início do século, tem publicado coletâneas do autor, selecionando crônicas do seu longo acervo agrupando-as linhas temáticas. Em “A Mesa Voadora” o fio condutor é a comida.

“No fim, tudo se deve à comida insossa. Quando os mongóis e os turcos interromperam o suprimento por terra dos condimentos do Oriente, a era dos descobrimentos começou. A Europa descobriu que não podia viver sem tempero e lançou-se ao mar e à conquista de rotas alternativas para o cominho e, por acidente, outros mundos.

A América é um produto do paladar europeu. Toda a grande aventura imperial foi aromática, tangida pela pimenta e o gengibre, a hortelã e a noz-moscada. Homens rudes lançavam-se contra o desconhecido e a morte pelo rosmaninho.

Outras fomes eram servidas, claro. A de ouro, a de prata, a de espaço. E a de sexo, pois as mulheres européias também eram sem sal.”

Veríssimo, como de hábito, é soberbo. Seja analisando friamente nosso comportamento bélico ao redor de uma mesa de buffet, ou salientando a natureza canibal inerente à espécie humana. Ou ainda discutindo as difíceis decisões que a tensão entre o prazer do bem comer e nossa consciência nos força a tomar:

“Não experimentei ainda a fondue de camarão porque precisei escolher entre comprar alguns quilos de camarão gigante e pagar a educação dos meus filhos.”

E entre digressões sobre globalização, e a plastificação e uniformidade que esta promove, acabando com os pastéis de beira de estrada que tendem a ser tão bons quanto pior for a aparência do estabelecimento; ou elocubrações sobre a similitude entre uma refeição completa e a história da vida sobre a terra, iniciada no caldo primal da sopa até a sobremesa final – nossa contemporaneidade, com nenhum valor nutritivo mas com uma apresentação magnífica “simbolizando o engenho e a futilidade humana”; encontra-se sintetizada a revolta coletiva contra as afirmações dos especialistas em nutrição, que mudam de parecer quase todo mês.

Ora tomate é saudável, ora é cancerígeno; carboidrato sim, carboidrato nem pensar! E o ovo, vilão por tanto tempo, de repente vira parte fundamental de um cardápio saudável! E quanto a todos os ovos que deixamos de comer em nome da boa saúde?! Quem responde por esse sacrifício?! Afinal

“Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso correrá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada.”



PS. - Dentro do tema comida, e tb do Veríssimo, é altamente recomendado o nonsense hilário de "Clube dos Anjos".

Avaliação: Dois pastéis de beira de estrada com um copo de caldo de cana!

08 janeiro 2012

Quero Ser Cliente Deles


Eis que eu tava zapeando no tumblr do Raphael (que é muito bom, mesmo sendo um tumblr), e vi essa postagem por lá:




Concordo com o comentário do Raphael, bem que certas empresas no Brasil, especialmente companhias aéreas (alguém falou webjet? TAM?) e empresas de telefonia (TIM, vivo..?) poderiam aprender o mínimo de relacionamento com cliente desses caras.

02 janeiro 2012

01 janeiro 2012

A Sopa de Kafka - Desafio Literário 2012







Todo mundo sabe que dia primeiro de janeiro é o dia internacional da ressaca. Muita água, coca-cola bem gelada, e uma comidinha leve. Se você consegue mandar pra dentro o resto do pernil ou do peru da ceia de ontem à noite, é só por não ter bebido o suficiente no réveillon.

A Sopa de Kafka é o livro ideal para hoje então. Como uma canja, bem de leve. Mark Crick traz 14 receitas no seu livro – incluindo o the best pão com queijo da galáxia. Cada receita é escrita emulando o estilo e a temática de um autor da literatura mundial, como Jane Austen, Raymond Chandler, Homero e, claro, Kafka.

O nível de sucesso de cada tentativa varia, mas alguns trechos ficaram primorosos. Adicionado a isso tem as ilustrações, também produzidas pelo autor, em que ele presta homenagem a artistas como Andy Warhol e Van Gogh.

Um trabalho cuidadoso. Vale pra passar o tempo no dia da ressaca, e, dependendo das suas habilidades gourmets, rende alguns dias a mais de diversão.

Avaliação: uma tigela de canja ½ cheia