31 dezembro 2011

Do Queimar Navios


Uma amiga mandou um email dizendo que 2011 não foi um ano memorável. Eu vi um Van Gogh ao vivo pela primeira vez. Retomei projetos parados a muito, sacudindo a apatia e o pó. Voltei a me mover, sinto que voltei aos trilhos. Devagar, nada prodigioso, mas andando na direção que me interessa. Se é certa ou não é uma discussão metafísica para outro momento. Então, em um nível bem pessoal, acho que não vou esquecer esse ano que acaba hoje tão fácil assim.

Dizem que Vitor Hugo dizia (difícil essas questões de autoria nos tempos correntes) que se deve sempre mudar nossas ideias e preservar nossos ideais – trocar as folhagens mas manter as raízes. Precisamos mudar o tempo todo para continuarmos os mesmos. Bom, eu preciso.

Historicamente o clã e os laços consangüíneos foram constantemente fundamentais para a sobrevivência dos organismos sociais. A própria lógica que definia o nós e o eles, que atribuía as lealdades, que garantia, enfim, que os vencedores receberiam as batatas. Hoje, no nosso mundo pós-moderno, as razões que subsidiavam essa lógica, da proximidade pela obrigação social, encontram-se, para dizer o mínimo, esgarçadas. Nenhum afeto é obrigatório.

E acho isso genial.

Não permanecemos conectados pela obrigação imposta pelos inúmeros papéis sociais, mas sim por escolha. E isso quer dizer que, eventualmente, podemos escolher dissolver essas conexões. E, quando o fizermos, acredito que devemos queimar os barcos e derrubar as pontes.

Até segunda ordem, temos uma única vida, e ela passa rápido demais. Nenhum motivo para permanecermos presos em uma espiral, contando de novo e de novo a mesma história. Então, estou grato pelas pessoas cujas histórias se entrelaçam com a minha. Grato pela história que está sendo escrita na minha vida.

E grato pela liberdade de bater o pó das sandálias.

02 dezembro 2011

Um Dia - Desafio Literário 2011



Um casal se encontra de maneira eventual em um trem seguindo para Paris com escala em Viena. Ambos jovens e bonitos, com backgrounds muito diferentes. Ele um americano (que obviamente fala inglês e inglês somente), em sua primeira viagem pela Europa – sugestivamente de classe média baixa já que teve que juntar dinheiro por um bom período para custear a viagem, usa um pulôver com um furo descosturado no ombro e não tem dinheiro suficiente para passar uma noite em um hotel. Ela uma estudante francesa da Universidade de Sorbonne que estava visitando a avó em Budapeste, filha de um arquiteto mundialmente reconhecido, com grande bagagem cultural e sonhos de mudar o mundo. Passam uma noite juntos. Nove anos depois se re-encontram, mais maduros – com a doçura, as dores e tudo o mais que isso implica. Você se envolve com o encanto da relação, do falar sobre tudo e nada, com o que está nas entrelinhas. Identifica-se com os olhares trocados e mais ainda com os olhares desviados quando o outro percebe que você está olhando. Provavelmente a minha história de amor favorita. E não, esse não é o livro Um Dia.
É o filme Antes do Amanhecer e sua continuação Antes do Pôr-do-Sol. Revi os dois em seqüência quando estava perto de terminar a leitura de Um Dia. Pq eu tô chegando nos trinta, o que, melodramaticamente como seja, dá uma sensação terrível, como se fosse a morte ou sei lá o quê. Então fiquei pensando que eu poderia ter me tornado um cínico (total) e que o músculo romântico do meu coração estivesse totalmente atrofiado. Bom, não que o teste tenha seguido um método baconiano, mas aparentemente não é o caso. Os filmes estrelados pela Julie Delpy e o Ethan Hawke ainda fizeram a mágica. O livro do David Nichols não.
O livro acompanha snapshots de um casal ao longo da vida, sempre na data que eles se encontraram “de verdade” pela primeira vez, o Dia de São Swithin (nunca ouviu falar? Nem eu. Aparentemente é algum tipo de santo metereologista. Coisa de inglês). Ambos jovens e bonitos, com backgrounds muito diferentes. Ele é um garanhão pegador de uma família endinheirada, ela é a revolucionariazinha que vai mudar o mundo e que corta o próprio cabelo como forma de protestar contra a objetificação da mulher. Como os personagens do Antes do Amanhecer/Pôr-do-Sol eles começam o livro um tanto clichês. E permanecem assim ao longo do livro. Os personagens do filme se revelam, se expõe, entram em contradição, amadurecem de maneira orgânica. No livro os personagens são sempre um tanto clichês.
Você consegue prever razoavelmente o arco da história, e os personagens secundários são ainda mais planos do que os personagens principais. Achei o plot muito interessante, mas a história acabou sendo decepcionante. Na verdade é que uma história de amor, como quiçá toda história (sim eu uso “quiçá”, qual o problema?), funciona no nível catártico. Quem acompanha a história de alguma maneira também se apaixona pelos personagens, e projeta ali seus próprios desejos, frustrações e experiências românticas. Um Dia não atinge esse efeito. Nem perto disso, já que eu mal consegui me importar com os personagens. Podia ser pior, claro, quando li cem páginas de Crepúsculo além de não me importar com a personagem, estava em franca torcida para que um caminhão carregado de madeira surgisse do nada e passasse por cima da porra da Bela.
Para não ser totalmente injusto, o capítulo 20 é realmente bom. Considerando que o livro tem vinte e três capítulos, é uma longa jornada até lá. Mas ei, as críticas têm sido ótimas, inclusive estão produzindo um filme (com a Anne Hathaway no papel da mocinha – a atriz perfeita para uma história de amor sem graça, ponto pro casting); logo deve ser só eu sendo rabugento, cínico e em crise por estar me aproximando inexoravelmente dos trinta anos.
Winston Churchill dizia, numa de minhas citações favoritas, que existem duas razões para se fazer qualquer coisa: uma boa razão e a verdadeira razão. Então, pq eu escolhi esse livro como o primeiro a ler no mês dos “lançamentos do ano” no Desafio Literário? A boa razão é que achei o plot interessante, seguir uma história através de recortes ao longo dos anos. Talvez alguma ressonância dos filmes Antes... , sei lá. A verdadeira razão foi puramente fetichista. O Dia de São Swithin, o dia em que a história se passa ao longo dos anos, é 15 de Julho, também conhecido como Dia Internacional de Neiriberto, onde as civilizações por todo o cosmos e além celebram o nascimento desse que ora vos escreve.
                                                                                                          
Avaliação: Meio copo de coca-cola num dia quente, estragado por gelo demais já meio diluído no refrigerante e a porra daquelas rodelas de limão.