31 outubro 2011

Carpinteiro de Avião


Fico pensando como era difícil ser operador de telégrafo. Aprender Código Morse e fazer aquela tradução instantânea do que um texto pra porra daqueles pontos e linhas (na verdade pra porra daqueles tiques e taques que eram traduzidos pra porra dos pontos e linhas pra então virar texto).
E datilógrafo? Cara, quem não teve que usar uma máquina de escrever, nem que seja por uma única vez, em um contexto profissional, não consegue apreciar apropriadamente a maravilha que é um editor eletrônico de texto! Houve um tempo em que carpinteiro de avião era uma profissão muito valorizada, e acendedor de lampiões de rua era uma profissão comum.
Os aviões não tem mais peças fabricadas em madeira, não há mais lampiões nas ruas, máquinas de datilografia são obsoletas e há inúmeras alternativas de comunicação mais eficientes que o telégrafo e aquela porcaria de tracinho tracinho ponto traço. O que me faz refletir, especificamente, é a galera que foi pega bem no período de declínio dessas profissões.
Imagina só, você passa anos labutando, se aperfeiçoando, desenvolvendo uma habilidade altamente especializada e aí, puff, de repente, todo seu treino e especialização vai pro espaço.
É como quando você tá no vuco-vuco com a mulher, no bem bom com a guria, naquele xamego, e enquanto mantém ela distraída com estímulos múltiplos (mordida no lado direito do pescoço + dedos da mão esquerda arranhando  nuca + coxa pressionada entre as coxas dela) e envia sutilmente sua mão direita pras costas dela. Alvo: Fecho do sutiã. Objetivo: abri-lo com uma única mão, preferencialmente sem nem ter tirado ainda a blusa dela, para poder ver a cara dela de “que horas tu abriu meu sutiã?!”. Que é, tipo, a terceira melhor expressão que pode ser vista na cara de uma mulher. E eis que vc, depois de anos lá-butando, se aperfeiçoando, desenvolvendo uma habilidade altamente especializada NÃO ACHA A DESGRAÇA DO FECHO! O que era pra ser um momento glorioso torna-se um embaraço progressivo a medida que os esforços se intensificam, tudo por causa do maldito Fecho Frontal. Morte ao infeliz que resolveu mexer na localização dos fechos dos sutiãs!



PS: E o que a imagem desse post tem a ver com o texto? Nada, oras. Eu gosto dela. E todo mundo lê um texto encabeçado por uma pin up secentista.



24 outubro 2011

Como Estrangeiros Nessa Terra


Não sei quem diz isso, mas estou razoavelmente confiante de estar em algum lugar do novo testamento que somos como estrangeiros no mundo. Tem dias que me sinto assim. Um estranho em terra estranha. Não falo o idioma. Quando acho que estou sacando a cultura e os costumes, meto os pés pelas mãos e cometo uma gafe qualquer. E por mais que aprenda a jogar, e até mesmo quando faço isso direitinho, tem algo que é essencialmente não-eu. Separado. Diferente.

Não consigo entender como dinheiro é mais importante que gentileza, como sagacidade é mais valorizado que coerência, como o aceitável é mais poderoso que a paixão.

23 outubro 2011

Relatório 01/10




Passaram-se cem dos mil e um dias. O ritmo está mais lento do que eu gostaria, mas muitas tarefas são contigenciais a outras etc. Então o balanço até o momento:

OBJETIVOS REALIZADOS:
3.       Ler “O Livro Perigoso para Garotos” escrevendo comentários para meu eventual filho
ABSURDAMENTE LEGAL, ME DIVERTI DEVERAS NO PROCESSO.
7.        Escrever uma carta para mim mesmo, para ser aberta em 10 anos
MUITO MAIS DESGASTANTE E DIFÍCIL DO QUE EU PODERIA IMAGINAR. MUITO ÚTIL TAMBÉM.
15.   Responder as 50 questões que irão libertar sua mente
NÃO FAÇAM ISSO! É UMA DROGA, CANSATIVO E INÚTIL. FIZ PQ ERA UMA MODINHA ENTRE OS PARTICIPANTES DO DAY ZERO PROJECT, E A IDÉIA ME PARECEU LEGAL.
20.   Uma semana sem internet
VALE A PENA PELA EXPERIÊNCIA ZEN E PELO TEMPO LIVRE QUE VOCÊ GANHA. ÓTIMA EXPERIÊNCIA DE CONTROLE E AUTO-DISCIPLINA
27.   Quitar todas minhas dívidas correntes 
        MUITO LEGAL ASSUMIR O CONTROLE DA SUA VIDA. SE EU TE DEVO GRANA, COBRE AGORA OU CALE-SE PARA SEMPRE.


OBJETIVOS EM QUE ALGUM AVANÇO FOI FEITO:
1.      Perder 50 quilos, ganhar alguma definição e ficar satisfeito com meu corpo. 25 QUILOS PERDIDOS ATÉ O MOMENTO.
6.   Entrar na UnB, em psicologia INSCRITO NO VESTIBULAR, PROVA EM DEZEMBRO. ESTUDANDO – MENOS DO QUE EU DEVERIA.
10. Juntar R$ 100.000,00 ALGUM AVANÇO FEITO, ÍNFIMO E RIDÍCULO, MAS ALGUM AVANÇO. PELA PRIMEIRA VEZ NA VIDA EU TENHO ECONOMIAS!
18. Desenhar algo que eu me orgulhe (e dependendo fazer uma compra de material de artes de qualidade). VOLTEI A DESENHAR DEPOIS DE, LITERALMENTE, MEIA VIDA. MAS SOU EXIGENTE, E AINDA NÃO TEM NADA QUE ME DEIXE REALMENTE ORGULHOSO.
30. Visitar Arthus em Fortaleza. A CAMINHO, QUASE CANCELEI A IDA POR CAUSA DE UMA TELEVISÃO E DA OFENSA MORAL QUE ELA ME CAUSOU, MAS ESTAVA EM MEUS OBJETIVOS, ENTÃO...
41. Dizer "eu te amo" para alguém (pra valer). EU JÁ TENHO BOCA, ENTÃO TECNICAMENTE PODE ACONTECER A QUALQUER MOMENTO.
46. Tomar um porre de tequila no meu aniversário de 30 anos. INCLUSIVE JÁ GANHEI UMA GARRAFA DE PRESENTE (QUE NÃO SEI SE SOBREVIVERÁ AO ANO NOVO)
53. Aumentar minha pontuação do TOEIC. JÁ FIZ O EXAME DE RENOVAÇÃO, ESPERANDO O RESULTADO. ANSIOSO, MEU RESULTADO JÁ ERA ALTO, ENTÃO QUALQUER ERRINHO...
86. Encher meu cofre de moedas de 1 real. TENHO O COFRE, PONHO AS MOEDAS. NADA EXCITANTE.
88. Completar os desafios hundredpushups.com e twohundredsitups.com. NO MEIO DO 100 PUSH UPS, NA VERDADE REINICIANDO A SEMANA CINCO – PRIMEIRA VEZ QUE TIVE PROBLEMAS COM O PROGRAMA.
89. Encher um Caderno de Esboços. VOLTEI A DESENHAR, TENHO UM CADERNO MUITO LEGAL E UM TOTAL DE 01 DESENHO INACABADO NELE. MAS ESTAMOS A CAMINHO.


Pra saber mais do projeto: http://dayzeroproject.com/about/

19 outubro 2011

Chick Flick


O que a gente chama pelo aprazível e sutil “comédia romântica”, os gringos chamam de “filme de menina”. Aqueles filmes bobinhos que, como define o Urban Dictionary, apelam pras fantasias e sonhos irrealísticos do público feminino com seus sistemas límbicos embebidos em doses inapropriadas de estrogênio. O sucesso desses filmes é medido em litros de lágrimas – quanto mais o público chorar, “melhor” é o filme. Titanic, independente de qualquer coisa, é fundamentalmente o maior chick flick da história.

Essa lógica do sucesso em litros de lágrimas tem se acentuado nos últimos anos, é cada vez mais comum o pai morrendo, o cachorro morrendo, ou a própria protagonista morrendo. O ruim, nesse último caso, é que em geral ela demora demais pra morrer. Fico torcendo o filme inteiro para acontecer um momento ACME e cair uma bigorna na testa da criatura. Mais ou menos o que eu gostaria que tivesse acontecido com a Bella em torno da página 15 de Crepúsculo.

Mas chick flicks também são um guilty pleasure muito comum. Ou seja, aquelas coisas que por breguinhas ou de mau gosto que sejam, a gente adora fazer. Como assistir comédias românticas. Claro que não todas elas, mas tem umas tão legais.  

Uma favorita é “10 coisas que odeio em você”. O elenco tem um monte de gente boa em começo de carreira, como o Heath Ledger, a Julia Stiles e o Joseph Gordon-Levitt. A história, por bobinha que tenha que ser, é legal. E Julia + Heath conseguem vender uma interação crível, mesmo com cenas como a dele cantando I Love You Baby nas arquibancadas da escola para ela, com direito a ser acompanhado pela banda marcial.

No entanto, para mim o melhor ainda é o poema que ela escreve – e que serve de desculpa para o nome do filme. Ela faz uma lista do que odeia nele, como os estúpidos coturnos, o corte de cabelo ensebado, o jeito que ele parece estar sempre certo, o fato dele fazê-la sorrir e de sempre ler a mente dela.

E mais que tudo, o fato de que, no fim das contas e com todos os bons motivos do mundo, ela não odiava ele nem um pouquinho. De jeito nenhum.

16 outubro 2011

Drops #02


Clique para ver maior e ler os quadrinhos sem danificar as vistas.

Drops #01

04 outubro 2011

The Conservationist - Desafio Literário 2011



Você já se deu ao trabalho de ler a lista de vencedores do prêmio Nobel de literatura? entre muita gente que tinha mesmo que estar lá e muita gente que não faço idéia do por quê não está, tem um monte de tosquera. Tipo, Freud e Sartre. Gênios etc. ok, mas gênios LITERÁRIOS? Há controvérsias.
Seja como for aparentemente o Nobel de economia e de outras áreas também tem o hábito de premiar tosqueras. Mas estou fugindo do foco aqui. Quando decidi participar do DL ano passado fui passear na lista de premiados e topei com o nome e a biografia da Nadine Gordimer. Confesso que nunca tinha ouvido falar dela.
Sul-africana, escritora e ativista. Lutou contra o apartheid e ultimamente está envolvida no trabalho contra a expansão da AIDS na África. Os livros dela são inéditos no Brasil (e extremamente difíceis de achar em pdf, confesso), então novamente tenho de agradecer a Débora que gentilmente comprou esse livro pra mim na Irlanda.
E a Nadine, graças aos panteões milenares, não é uma das tosqueras. Bem o contrário, é uma das melhores coisas que eu já li. Ela tem uma musicalidade na narrativa que é sem comparação. A linguagem dela é como versos em prosa.
É um romance difícil de descrever, já que geralmente temos histórias focadas na trama ou histórias focadas nos personagens, e The Conservationist não é nenhuma das duas coisas. Há uma linha narrativa, com começo, meio e fim, mas não é muito rígida ou mesmo importante.
E embora ela caracterize os personagens com perfeição e de maneira extremamente crível, eles não mudam durante a trama. Não há desenvolvimento ou mesmo uma jornada de personagem. As pessoas são como elas são, e quanto mais as conhecemos mais elas são o que elas são. Inclusive em sua insignificância ante a terra e o ciclo natural da vida.
A autora é sutil, os temas mais diversos e controversos entram e saem de cena sem serem abusados na narrativa, sem sensacionalismo. Ela também demonstra conhecer a natureza humana em detalhes. A mão dela é honesta, nem complacente nem pesada demais.

Avaliação: Um copo cheio de sensibilidade.

01 outubro 2011

Do Empacotar e Das Mudanças


Estou enrolado no processo de tentar dar conta de tudo de uma vez só: estudar pro vestibular, trabalhar e organizar minha mudança. Tava tudo indo bem, mas ontem meio que o cansaço da semana bateu e passei hoje sem vontade de fazer nadinha útil.

Pra tentar me fazer produtivo resolvi separar os livros da minha biblioteca a serem vendidos - sempre faço isso antes de me mudar, não tenho uma relação fetichista com meus livros. Se li e não pretendo ler de novo e tenho uma cópia digital no meu hd praqueles que pretendo ter para referência futura e não tem nenhuma relação emocional (presente, herança, etc) não tem pq manter o livro.

Tudo bem que tem uns 50 na lista de não vendíveis simplesmente pq não li ainda. Fato é que dessa vez acabei, pelo menos na primeira triagem, com muito menos livros na pilha dos vendíveis. Pelo menos, menos que o habitual. E foi uma sensação estranha.

De estar ficando velho, já que tem muito mais histórias acumuladas e logo muito mais livros com histórias pessoais. Ou de estar me apegando mais as coisas, o que me causa uma estranheza ao estar em minha própria pele e um impulso quase incontrolável de tacar fogo em tudo. E em algum canto da minha mente uma parte de mim considerou qual seria o número de pessoas na vida das quais eu realmente não poderia abrir mão. Seria pelo menos igual ao número de livros nessa pilha dos quais estou tendo certa dificuldade em me separar? E tem alguma coisa muita errada quando se tem mais coisas do que pessoas.

Nesse furor expressivo que as vezes toma conta de mim, e que é uma forma de lidar com as situações, pensei em twittar sobre o assunto, ou postar no blog (o que devo fazer de qualquer maneira).

Mas ai me dei conta de que o que eu queria mesmo era dividir isso com você.

Então, sim: saudade é fogo.