03 setembro 2011

O Ciclista - Desafio Literário 2011


Em um dos filmes do José Mojica Marins há uma cena, se minha memória semi-senílica de pré-trinta não me falha, em que a câmera foca o rosto de uma mulher enquanto ouvimos a voz do cineasta em seu alter-ego. Não tenho a menor idéia do que ele fala, realmente não lembro, mas conhecendo nosso amigo Zé do Caixão dá pra se ter uma idéia do teor do discurso. Enquanto ele fala acompanhamos a alteração nas expressões da atriz. Puro cinema. Em nenhum outro meio de comunicação ou expressão artística um efeito similar poderia ser alcançado. Domínio total da arte.
Embora os trabalhos recentes do Frank Miller estejam começando a me traumatizar (sinto que depois que Holy Terror for lançada meu sistema nervoso vai reagir inconscientemente à menção do Frank Miller da mesma forma que reage ao Rob Liefeld) sua obra dos anos oitenta, O Cavaleiro das Trevas principalmente, possui também essa qualidade. É uma história em quadrinhos que se utiliza dos recursos do meio de forma impecável. É tudo o que uma história em quadrinhos pode ser, e tudo o que uma história em quadrinhos pode ser.
Quando eu ensinava literatura – muitos quilômetros e quase um terço de vida atrás, utilizava A Lenda dos Cem, de Gilvan Lemos, como exemplo de romance. Romance enquanto estrutura narrativa, bem claro. O livro em questão não poderia ser escrito como novela, ou folhetim ou qualquer outro estilo – é um romance, em todo seu potencial. E muito útil para esclarecer na mente dos pré-pubecentes que não estávamos falando de história de amor. Isso e alguns gráficos escrotos envolvendo trenzinhos e sistemas planetários.
Chegando ao ponto: O Ciclista, do Walther Moreira Santos, possui essa mesma qualidade de domínio último do meio que utiliza. É um livro em todo seu potencial. O uso vai além da linguagem: a ordenação, diagramação – e até uma página em branco estrategicamente localizada. Tudo é genial. É um livro climático, prende você sem nem sentir, te envolve naquela atmosfera e toca cantos empoeirados da gente.
É um livro de “jornada”, por assim dizer. Mais do que o que acontece, é o como acontece. Tão importante quanto o que é dito é o não-dito. Não dá pra falar da trama sem entregar – até pq o livro é curtinho, li entre a ida pro trabalho e a hora de dormir (e nesse dia só trabalhei de tarde). Vamos lá. Um homem morando sozinho em uma casa (preso?) recebe uma visita, e ele se vê obrigado por seu próprio condicionamento gentil (controlado? restritivo?) a convidar essa visita para entrar. E tem duas outras pessoas importantes para o homem que está dentro da casa. Duas pessoas que ele ama muito (amou?). E duas pessoas, diga-se de passagem, particularmente difíceis de amar. E tem uma viagem até o fim do mundo.
Gostei tanto do livro que escrevi meu primeiro e-mail de fã para o autor (que se deu ao trabalho de responder, muito gentil da parte dele). Um livro anterior, esse auto-biográfico e também excepcional (talvez ainda melhor que O Ciclista), se chama “Dentro da Chuva Amarela”. Também recomendo.
Avaliação: Definitivamente um copo cheio (talvez mais de um copo), de alguma daquelas bebidas traiçoeiras, que são tão gostosinhas que vc só percebe que bebeu demais quando já tá de porre!

3 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Gostei da resenha, vou atrás do autor. prevejo muito prejuízo pois essa é a semana da Bienal do Livro por aqui!
abs
Jussara

DaniNeves disse...

Eu até tava empolgadinha pra ler a sua resenha, mas cheguei na expressão "semi-senilítica pré-trinta" e desencanei.
Audácia! Humpf.
Beijo da vovó.

Vivi disse...

E não é, Dani? É demais, viu?...rs
Empolguei para ler esse daí.