05 junho 2011

Rei Lear - Desafio Literário 2011


Mês do teatro no Desafio Literário, nada mais justo do que ler Shakespeare. Há muitos anos que eu não lia nada dele (se tiver tempo sobrando esse mês vou ler uma das comédias também).

Comentário irrelevante, mas whatever: se alguém ler Romeu e Julieta esse mês e na resenha disser que é uma história de amor eu tenho um treco. Romeu começa a peça totalmente deprimido e devastado pq o grande amor da vida dele sem a qual ele não é capaz de respirar (pasmem, não é julieta!) vai se tornar freira. Em um comportamento ainda mais adolescente do que esse amor ensandecido, ele vai de penetra numa festa naquela noite com uns brother pra encher a cara e esquecer da menina. Nessa festa ele vê Julieta e PRONTO DO NADA TÁ APAIXONADO PERDIDO PELA GURIA. Nunca mais nem fala do amor da coitada que tava entrando pro convento. Detalhe: a guria, Julieta, tinha "doze primaveras". O que o pedófilo viu numa a-peitada e a-bundada? Pq ele se apaixona antes de falar com ela!!! Ai vai no caô mais tosco do mundo (é uma festa a fantasia, ele de peregrino ela de santa. Aí ele beija ela pra mostrar a reverência à santa, depois fala que é indigno de beijar ela e ela tem de devolver o beijo etc.). Ok, não é o mais tosco. É até bonitinho, vai. Enfim, esse novo amor desesperado do nada sem nem se verem direito nem se conhecerem, em uma semana esses dois conseguem casar, morrer e matar um monte de gente no processo. Logo, Romeu e Julieta é uma peça sobre a volatilidade do sentimento juvenil. Ou seja: sobre a imbecilidade dessa desordem mental que chamam de amor. Fim do comentário aleatório, whatever.

Lear é um drama na definição clássica, a fusão da tragédia e da comédia. O tema é sério e pesado, mas os momentos de "alívio cômico" são incríveis. Notas especiais para o Bobo, o xiste de xingamentos de Kent contra o servo da filha mais velha de Lear (melhor coleção de imprecações e agressões verbais ever), o suicídio encenado por Edgar como experiência terapêutica para seu nobre pai (praticamente um doutorado em psicodrama).

Têm algumas coisas complicadas no enredo. Por exemplo, Kent e Edgar são aparentados do Clark Kent (ei, até o nome, não tinha percebido). Sabe aquele lance de tirar o óculos e ficar irreconhecível podendo assim ser o super-homem? Então, eles se cobrem de lama vestem andrajos e mudam a voz e o povo que viveu a vida inteira com eles não tem a menor idéia de quem sejam. Lear passa por uma transformação física similar mas ninguém parece ter dificuldade em saber quem ele é. Mas acredito que uma produção competente seja capaz de cobrir essa escapada do texto. Ah, as últimas falas de Edmundo também são bem fora de propósito - considerando a trajetória do personagem.

Lembro de uma passagem nos evangelhos que Jesus conta que um pai tem dois filhos, e aos dois ordena que vão arar um campo. O primeiro filho afirma que assim o fará, mas não o faz. O segundo diz que não o fará, mas acaba indo e arando o tal do campo. Cristo pergunta então, retoricamente, qual dos dois teria cumprido a vontade do pai.

Shakespeare parte do mesmo tema nessa peça. A habilidade para produzir palavras doces não significa lealdade nos atos. Mas Lear, como todo mundo, "emprenha pelos ouvidos". A trama paralela, de Edmundo etc, só reforça essa linha da trama principal.

A verdade não tem a necessidade de ser doce, contudo a lealdade precisa ser consorciada à verdade. Rei Lear é, um pouquinho, para mim, uma fábula moral, quase com uma "lição". Algo como: prefira as pessoas verdadeiras às agradáveis.


Avaliação: Uma taça cheia de vinho! (é um clássico, oras, nada mais clássico que porre de vinho. Até Noé já tomava porre de vinho...)


PS - Na imagem Sir Ian Mckellen (a.k.a. Magneto, Gandalf, e o nazista foragido em "O Aprendiz") interpreta Lear.

7 comentários:

naomi disse...

ri muito com seu parêntese a respeito de romeu e julieta [que não gosto muito porque sempre me lembra de píramo e tisbe].

agora bateu vontade de rever 'ran' do kurosawa...

Cristine Martin disse...

Olá Neriberto,

cheguei aqui pela Naomi, e adorei sua resenha! Por que será que as tragédias do tio Shakes são sempre melhores que as comédias?

Abraços!

Mi Müller disse...

carambolas o parêntese sobre romeu e julieta abalou hehehehe... eu também fico meio assim quando chamam de história de amor... me dá nos nervos hehehehe...
Agora Rei Lear não li e fiquei com vontade, e isso tem sido recorrente nas leituras das tuas resenhas :)
estrelinhas coloridas...

Vivi disse...

Também não acredito no ideal desse amor inventado culturalmente. Não existe. No contexto de nossa sociedade romantica, vejo o amor como recurso de linguagem para alcançar a empatia emocional do público. Mas, shakespeare, claro, segue a narrativa para além disso. Na perspectativa melodramática dessa tragédia, há o "amor" efêmero, o "amor" luxúria, o "amor" interesse. Uma história que acontece em nome do ódio e do amor...
Sua resenha está ótima. Desculpe a opinião de um pouco entendida...rs

Beijocas!

Lyani disse...

hahahah, adorei a resenha! Super sincera e engraçada, principalmente no início, sobre Romeu e Julieta e na avaliação! Adorei: "uma taça cheia de vinho" :)
Eu tmabém decidi ler Shakespeare, para o desafio, mas não consegui ler Romeu e Julieta, acredita? Só li tragédias, dentre elas Rei Lear!
Curti!
Parabéns pela resenha!
Abraços,
Ly

Michelle disse...

Gostei horrores do comentário aleatório, horrores!

Michelle disse...

Ah! Mas nunca tomei um porre de vinho. Sou um alíen?