19 junho 2011

Dos Clubes


Tenho medo de clubes. Em especial, os fechados. Ainda mais se eles tem um código próprio, sinais e maneirismos peculiares. A linguagem dos ajuntamentos também me assusta. Tudo deve ser dito no linguajar próprio, mesmo que pudesse ser dito em português perfeitamente claro e compreensível para o cidadão médio.  Todos os grupos desenvolvem uma linguagem própria. Inescapável. E assustador. Um pouco, pelo menos.
Toda igreja, clube, grupo, ordem, sociedade etc funciona a partir da mesma dinâmica básica do Clube do Bolinha (aquele do “menina não entra”). Participar de um grupo produz no membro um senso de pertencimento. De ser parte de algo maior do que ele próprio. Essa sensação é o que efetivamente conecta o participante àquele espaço. Não qualquer alegação de intenção filantrópica, filosófica, religiosa, moral, ética ou mesmo de saúde.
O meu medo começa, na verdade, é na linha. Todo clube traça um limite, um perímetro. Ele separa membros de não-membros. Não importa se as reuniões são abertas e acontecem em praça pública, ou se são encontros fechados ultra-secretos onde adolescentes onanistas usam fantasias de Harry Potter supostamente inspirados por um cavaleiro que na verdade não era mais do que um banqueiro sagaz e pouco ético. Seja qual for o contexto, a linha está lá.
O clube define em um nível mental quem somos Nós e, por exclusão, quem são Eles. Somos diferentes. E há uma falha em nosso design – devido àquela bagaça com a fruta do binômio Adão/Eva ou à alguma necessidade de adaptação evolutiva completamente especulativa e fantasiosa – que nos impede de pensar em ser “diferentes” sem pensar em categorização.
Ao nos percebermos diferentes, nos classificamos automaticamente  como Superiores, Melhores, Especiais. E essa valoração é retroalimentada pela dinâmica do clube. Tomemos, como exemplo, a experiência da conversão. Numa relação insidiosa, a experiência positiva de se estar em um novo espaço religioso, que produziu mudanças existenciais significativas é acompanhada da percepção de que Eles não estão aqui. Estão para além da linha.
Um sorriso involuntário escorre para os lábios quando pensamos como deve ser duro ser um Ele, um não-membro, um não-iniciado. Alguém que não sabe, não foi iluminado.
Como o clube precisa defender sua própria existência enquanto ente coletivo, há um outro fenômeno comum – que ocorre sempre que um Não-Iniciado blasfema contra a Instituição/Nós. Você não é um de Nós, não sabe do que está falando, não tem como entender.
Um ciclo freudiano – o judeu barbudo argumentou em um de seus livros que os dissidentes ou discordantes da psicanálise o faziam ou por estar em resistência, portanto negando a verdade para proteger seus egos, ou então por não serem capazes de compreender o que a psicanálise estava dizendo. Ou você está fugindo, ou é burro. Não há espaço para que o vienense em si esteja errado ou que sua teoria seja passível de crítica.
O mesmo se dá com infinitos outros clubes. Você não pode criticar pq não é um membro, e se você criticar enquanto membro deixa de o ser, passando a ser um dissidente, apóstata, herege, anátema. Não é lógico, mas é efetivo para proteger o organismo social do clube. De todos eles.
Então, eu tenho medo de clubes. Para ser específico, dessa que vou chamar de Mentalidade de Clube que parece tomar tantas formas quantos possíveis forem os agrupamentos humanos. Não posso afirmar isso com segurança, claro, mas alguma coisa me diz que quase todas Grandes Merdas da humanidade (dessas que a gente escreve em caixa alta ou versalete) podem ser rastreadas até essa mentalidade.
Tudo por causa de um truque de prestidigitação de nosso sistema nervoso defeituoso. Que gera uma programação de Nós versus Eles quando, na verdade, só tem dados para uma constatação de Nós e Eles.



15 junho 2011

Um Pouco de Poesia


“Você estão cismados com esses supostos oitenta anos. Isso é coisa de calendário. A vida recomeça todos os dias, de zero. Se você não quer fazer mais nada, a vida acaba, porque ela, na verdade, é inventada por nós, todos os dias.”
“O que importa mesmo é o poema, a obra literária, que é capaz de tocar as pessoas, iluminá-las, fazê-las gostar mais da vida. O homem inventou a poesia porque a vida não basta.”
“A poesia existe desde sempre, antes mesmo do homem inventar a escrita. Ela é um dos instrumentos de que ele dispõe para se inventar como ser humano e tornar a vida mais rica, mais bela.”

Ferreira Gullar, no bate-papo UOL, por ocasião de seus oitenta anos

12 junho 2011

A Megera Domada - Desafio Literário 2011


Como estou tendo dificuldade em conseguir os livros que eu tinha me proposto a ler para esse mês, resolvi seguir com Shakespeare. A Megera Domada foi decepcionante. Não sei se dá pra generalizar para as demais comédias, mas certamente esta não chega nem perto dos textos dramáticos de Shakespeare.
O mote é interessante, e bem conhecido dadas as obras contemporâneas inspiradas pela peça como a novela “O Cravo e A Rosa” (guilty pleasure) e a comédia romântica “Dez coisas que eu odeio em você”. Um pai tem duas filhas, sendo a mais nova bela, gentil e doce e a mais velha uma megera intratável. E ele estabelece que antes da mais nova poder casar a mais velha precisa desencalhar primeiro. Como não aparece pretendente para uma mulher de língua tão afiada, os inúmeros pretendentes de Bianca, a filha mais nova, armam para arranjar um louco para casar com Catarina, a megera.
Petrúquio é pago pelos pretendentes de Bianca, e torna-se noivo e eventualmente marido de Catarina. O processo de domar Catarina é algo pavloviano. Não há grandes passagens literárias, nem personagens cativantes, nem situações especialmente cômicas (ri mais em Rei Lear, por exemplo). Há ainda a introdução que é completamente dispensável e desconexa com a peça – a idéia é que a história de Catarina e Petrúquio seria uma peça dentro da peça, sendo encenada para um bêbado que foi enganado para achar que é nobre – mas essa trama externa some ainda no primeiro ou segundo ato, não recebe resolução e é completamente dispensável à peça.
Se fosse a única coisa que eu tivesse lido de Shakespeare eu acharia que ele é tremendamente supervalorizado. Sob o risco de atrair a fúria eterna dos literatos: aluga o “10 things...” pra rever que vale mais a pena. Nem que seja pela cena do “I Love You Baby!”.

Avaliação: ¼ de xícara de chá com bolacha

05 junho 2011

Rei Lear - Desafio Literário 2011


Mês do teatro no Desafio Literário, nada mais justo do que ler Shakespeare. Há muitos anos que eu não lia nada dele (se tiver tempo sobrando esse mês vou ler uma das comédias também).

Comentário irrelevante, mas whatever: se alguém ler Romeu e Julieta esse mês e na resenha disser que é uma história de amor eu tenho um treco. Romeu começa a peça totalmente deprimido e devastado pq o grande amor da vida dele sem a qual ele não é capaz de respirar (pasmem, não é julieta!) vai se tornar freira. Em um comportamento ainda mais adolescente do que esse amor ensandecido, ele vai de penetra numa festa naquela noite com uns brother pra encher a cara e esquecer da menina. Nessa festa ele vê Julieta e PRONTO DO NADA TÁ APAIXONADO PERDIDO PELA GURIA. Nunca mais nem fala do amor da coitada que tava entrando pro convento. Detalhe: a guria, Julieta, tinha "doze primaveras". O que o pedófilo viu numa a-peitada e a-bundada? Pq ele se apaixona antes de falar com ela!!! Ai vai no caô mais tosco do mundo (é uma festa a fantasia, ele de peregrino ela de santa. Aí ele beija ela pra mostrar a reverência à santa, depois fala que é indigno de beijar ela e ela tem de devolver o beijo etc.). Ok, não é o mais tosco. É até bonitinho, vai. Enfim, esse novo amor desesperado do nada sem nem se verem direito nem se conhecerem, em uma semana esses dois conseguem casar, morrer e matar um monte de gente no processo. Logo, Romeu e Julieta é uma peça sobre a volatilidade do sentimento juvenil. Ou seja: sobre a imbecilidade dessa desordem mental que chamam de amor. Fim do comentário aleatório, whatever.

Lear é um drama na definição clássica, a fusão da tragédia e da comédia. O tema é sério e pesado, mas os momentos de "alívio cômico" são incríveis. Notas especiais para o Bobo, o xiste de xingamentos de Kent contra o servo da filha mais velha de Lear (melhor coleção de imprecações e agressões verbais ever), o suicídio encenado por Edgar como experiência terapêutica para seu nobre pai (praticamente um doutorado em psicodrama).

Têm algumas coisas complicadas no enredo. Por exemplo, Kent e Edgar são aparentados do Clark Kent (ei, até o nome, não tinha percebido). Sabe aquele lance de tirar o óculos e ficar irreconhecível podendo assim ser o super-homem? Então, eles se cobrem de lama vestem andrajos e mudam a voz e o povo que viveu a vida inteira com eles não tem a menor idéia de quem sejam. Lear passa por uma transformação física similar mas ninguém parece ter dificuldade em saber quem ele é. Mas acredito que uma produção competente seja capaz de cobrir essa escapada do texto. Ah, as últimas falas de Edmundo também são bem fora de propósito - considerando a trajetória do personagem.

Lembro de uma passagem nos evangelhos que Jesus conta que um pai tem dois filhos, e aos dois ordena que vão arar um campo. O primeiro filho afirma que assim o fará, mas não o faz. O segundo diz que não o fará, mas acaba indo e arando o tal do campo. Cristo pergunta então, retoricamente, qual dos dois teria cumprido a vontade do pai.

Shakespeare parte do mesmo tema nessa peça. A habilidade para produzir palavras doces não significa lealdade nos atos. Mas Lear, como todo mundo, "emprenha pelos ouvidos". A trama paralela, de Edmundo etc, só reforça essa linha da trama principal.

A verdade não tem a necessidade de ser doce, contudo a lealdade precisa ser consorciada à verdade. Rei Lear é, um pouquinho, para mim, uma fábula moral, quase com uma "lição". Algo como: prefira as pessoas verdadeiras às agradáveis.


Avaliação: Uma taça cheia de vinho! (é um clássico, oras, nada mais clássico que porre de vinho. Até Noé já tomava porre de vinho...)


PS - Na imagem Sir Ian Mckellen (a.k.a. Magneto, Gandalf, e o nazista foragido em "O Aprendiz") interpreta Lear.

01 junho 2011

Pigmalião - Desafio Literário 2011


George Bernard Shaw é daqueles autores que a gente sabe que tem que ler, é um clássico etc, mas que por um motivo ou outro nunca lemos. Li finalmente. O cara é genial desde o prelúdio até o posfácio do livro.

Quem saca um pouco de mitologia grega vai ter umas dicas do desenrolar da história. Passada em londres, no início do século XX, a peça, basicamente, fala de como Higgins - um especialista em fonética, acolhe uma vendedora de flores e a transforma numa duquesa ensinando-a a falar apropriadamente e a se portar de maneira refinada.

O enredo que parece quase romântico e semi-simplista é só enganação. O livro tem tiradas impagáveis, e as relações entre os personagens se constroem de maneira sempre coerente, mas constantemente inusitadas.

Higgins é praticamente um dr. House. Um gênio fodão em sua área, mas incapaz do menor cortejo ou delicadeza social. Quando é questionado por Liza, a florista, pelo fato de nunca ter sido gentil com ela, ele responde perguntando se ela já o viu ser gentil com quem quer que seja. Na verdade, sua crueza e sinceridade excessiva, dirigidas à humanidade em geral só mostra, a seu ver, seu espírito democrático e amor pela raça.

Para Liza, no entanto, o que torna uma pessoa uma duquesa não é ser ensinada a ser uma duquesa, mas ser tratada como uma.

Avaliação: Uma taça de champanhe cheia acompanhada com um bombom de chocolate.



PS - O povo do Chaves/Chapolin fez um episódio que é uma adaptação da peça, bastante fidedigna por sinal. É psicodélico ler um escritor inglês de cem anos atrás enquanto a imagem do médico manco das séries de tv contemporâneas cruzam com a da chiquinha.