31 maio 2011

Londonistan - Desafio Literário 2011



Muito trabalho, uma preguiça danada, e eis aqui eu de novo escrevendo as resenhas no último dia. Isso e o fato de Londonistan ser o livro mais difícil dos que li até agora no Desafio Literário. Difícil por causa do tema e da autora.

O livro trata da questão Islâmica no Reino Unido. Tem uma avalanche de fatos muito interessantes. E é completamente tendencioso, histérico e preconceituoso - por mais que alegue não ser.

Antes de seguir adiante quero dizer que acho absurdo igualar toda a religião e cultura muçulmana com os movimentos extremistas e terroristas. Por outro lado, não tem como em sã consciência dissociar o terrorismo contemporâneo de sua origem teológica. Embora, claro, não se possa ignorar o quanto as questões sociais servem de combustível a todo o processo. Ou seja, o assunto é complexo pra caralho.

Merece um debate amplo, irrestrito e que busque, efetivamente, uma visão de diversos ângulos. E é isso que Londonistan não fornece. A autora é ultra-conservadora. Considera o multiculturalismo um absurdo. De alguma maneira ela espera e acha razoável que um grande influxo de imigrantes (que ela reconhece serem lucrativos como mão de obra) venham a um país e atinjam massa crítica sem influenciar a cultura e os hábitos desse país.

Acha que a Inglaterra deveria deixar de ser signatária de todos os pactos e tratados de Direitos Humanos. Guantánamo para ela não é nem sequer um mal necessário, é só necessário. Durante todo o livro cem por cento das ações de Israel, Tony Blair, Ariel Sharon, Bush e dos Estados Unidos são considerados como legítima defesa e completamente corretos.

Em nenhum momento é citado, por exemplo, o bem documentado envolvimento da CIA com Osama Bin Laden na época da guerra fria. Todas as notícias sobre Israel e os Estados Unidos seriam manipuladas para mostrarem esses países, na verdade meras vítimas da violência, como algozes. Por exemplo, em um conflito mencionado no livro (na Jordânia, salvo engano), a imprensa londrina noticiou um massacre cometido pelos israelenses quando na verdade, segundo a autora, SOMENTE 50 pessoas foram mortas, e acredita-se que a maioria era composta por homens armados.

Ela afirma que a Inglaterra está caminhando para a dissolução, vítima da ameaça de dominação cultural islâmica. E que simplesmente não há histeria suficiente, nem medo suficiente. Minhas conclusões isso, claro.

Ela fala da ineficiência da polícia, do medo das autoridades em agir etc.

O assassinato de Jean Charles - brasileiro assassinado pela polícia em Londres pq acharam que ele poderia ser um homem-bomba - merece duas rápidas menções no livro, num total de menos de seis linhas, considerado simplesmente como um erro infeliz. Não é feito nenhum comentário ou debate sobre o que ele evidencia. A histeria, o preconceito e o medo por trás do acontecimento não são debatidos. O simples fato da polícia londrina estar portando armas - uma excessão no Reino Unido, mostra que as coisas não são exatamente como a autora coloca.

Enfim, um livro instigante pelo debate que promove. Útil pelo número de informações. Infelizmente perde de sua força e impacto pela doutrinação da autora e seus malabarismos de lógica.

Não que eu discorde sempre dela. Só quando ela é uma wasp racista sharonista-bushista imbecil.

95% do tempo, eu diria.

PS - Agradecimentos a minha amiga quase irlandesa que me deu o livro de presente, já que ele não foi publicado no Brasil.

Avaliação: dada a intensidade da experiência, um copo cheio de purgante


3 comentários:

Larissa, Lara, Lalá, .... disse...

Nossa!!! este livro deve ser muito interessante ... a comecar pelo assunto que me chama a atencao apesar de achar um literatura de dificil compreensao, devido a tantas diferencas com a nossa cultura. Boa escolha e muito boa sua resenha.

Vivi disse...

Estou morrendo de rir...muito engraçado o copo de purgante...pró-bushismo não dá! Esse eu passo...

Beijocas

Michelle disse...

Dai que ela pode escrever um manual de como conviver (com gente)sem se deixar influenciar, sem trocar experiências. Desafio literário!!
PS: captei a vossa "raiva".