31 maio 2011

Abusado - Desafio Literário 2011


Nem a glamourização da polícia e da violência de Tropa de Elite, nem a glamourização do tráfico de Cidade de Deus. Por mais que eu tenha adorado os filmes de que falei, enquanto fonte de informação, equilíbrio e fidedignidade, o livro de Caco Barcelos está a anos luz destas obras cinematográficas.

Conta a história de Marcinho VP, no livro alcunhado de Juliano, traficante ligado ao Comando Vermelho e dono do morro dona marta. Com uma visão precisa da realidade, levanta todas as questões que efetivamente deveria levantar, causando o desconforto e a revolta necessária.

"Os anos de infância vividos nas calçadas de Copacabana deixaram cicatrizes no corpo de Luz e ferimentos na alma. As piores marcas foram causadas pelos agressores disfarçados de gente civilizada, que se escondiam no escuro dos apartamentos, de onde lançavam pela janela o balde com água fervendo sobre o seu corpo e os das outras crianças que dormiam no chão. Muitas madrugadas acordou com a dor das queimaduras e os gritos de horror das amiguinhas.

A única vingança possível era tentar acordar alguém com um choro agudo de criança apavorada, a implorar socorro, alguma proteção contra o ódio que vinha lá de cima. Às vezes percebia que algum curioso espiava pela fresta da cortina o seu sofrimento. Alguns acendiam a luz e apareciam na janela. Eram os solidários. Luz descobriu logo que uma lâmpada que se acende no prédio às escuras é o máximo de atenção que uma criança de rua desperta nas madrugadas de Copacabana."

O relato todo é um tanto naturalista, as pessoas são produto do meio e compreendidas como tal. Não é uma crítica, só uma observação, até pq o mesmo meio produz indivíduos bastante diferentes.

Uma última ressalva é que por melhor que seja o livro, e por mais relevante também, não é um primor literário - nada que chegue aos pés de um Truman Capote. Mas com certeza mais do que vale a leitura.

Avaliação: copo 3/4 cheio... bom, não sei bem do que pq eles não bebem muito no livro. Como cheiram como o diabo, digamos que seria pó 75% puro.

Londonistan - Desafio Literário 2011



Muito trabalho, uma preguiça danada, e eis aqui eu de novo escrevendo as resenhas no último dia. Isso e o fato de Londonistan ser o livro mais difícil dos que li até agora no Desafio Literário. Difícil por causa do tema e da autora.

O livro trata da questão Islâmica no Reino Unido. Tem uma avalanche de fatos muito interessantes. E é completamente tendencioso, histérico e preconceituoso - por mais que alegue não ser.

Antes de seguir adiante quero dizer que acho absurdo igualar toda a religião e cultura muçulmana com os movimentos extremistas e terroristas. Por outro lado, não tem como em sã consciência dissociar o terrorismo contemporâneo de sua origem teológica. Embora, claro, não se possa ignorar o quanto as questões sociais servem de combustível a todo o processo. Ou seja, o assunto é complexo pra caralho.

Merece um debate amplo, irrestrito e que busque, efetivamente, uma visão de diversos ângulos. E é isso que Londonistan não fornece. A autora é ultra-conservadora. Considera o multiculturalismo um absurdo. De alguma maneira ela espera e acha razoável que um grande influxo de imigrantes (que ela reconhece serem lucrativos como mão de obra) venham a um país e atinjam massa crítica sem influenciar a cultura e os hábitos desse país.

Acha que a Inglaterra deveria deixar de ser signatária de todos os pactos e tratados de Direitos Humanos. Guantánamo para ela não é nem sequer um mal necessário, é só necessário. Durante todo o livro cem por cento das ações de Israel, Tony Blair, Ariel Sharon, Bush e dos Estados Unidos são considerados como legítima defesa e completamente corretos.

Em nenhum momento é citado, por exemplo, o bem documentado envolvimento da CIA com Osama Bin Laden na época da guerra fria. Todas as notícias sobre Israel e os Estados Unidos seriam manipuladas para mostrarem esses países, na verdade meras vítimas da violência, como algozes. Por exemplo, em um conflito mencionado no livro (na Jordânia, salvo engano), a imprensa londrina noticiou um massacre cometido pelos israelenses quando na verdade, segundo a autora, SOMENTE 50 pessoas foram mortas, e acredita-se que a maioria era composta por homens armados.

Ela afirma que a Inglaterra está caminhando para a dissolução, vítima da ameaça de dominação cultural islâmica. E que simplesmente não há histeria suficiente, nem medo suficiente. Minhas conclusões isso, claro.

Ela fala da ineficiência da polícia, do medo das autoridades em agir etc.

O assassinato de Jean Charles - brasileiro assassinado pela polícia em Londres pq acharam que ele poderia ser um homem-bomba - merece duas rápidas menções no livro, num total de menos de seis linhas, considerado simplesmente como um erro infeliz. Não é feito nenhum comentário ou debate sobre o que ele evidencia. A histeria, o preconceito e o medo por trás do acontecimento não são debatidos. O simples fato da polícia londrina estar portando armas - uma excessão no Reino Unido, mostra que as coisas não são exatamente como a autora coloca.

Enfim, um livro instigante pelo debate que promove. Útil pelo número de informações. Infelizmente perde de sua força e impacto pela doutrinação da autora e seus malabarismos de lógica.

Não que eu discorde sempre dela. Só quando ela é uma wasp racista sharonista-bushista imbecil.

95% do tempo, eu diria.

PS - Agradecimentos a minha amiga quase irlandesa que me deu o livro de presente, já que ele não foi publicado no Brasil.

Avaliação: dada a intensidade da experiência, um copo cheio de purgante


16 maio 2011

O que aprendi com meu padrasto

01 - Nunca jamais em tempo algum elogie alguém. Se essa pessoa fez algo certo ou bem feito, não fez mais que a obrigação dela.

02 - Sempre diga que uma pessoa é idiota quando esta lhe apresentar uma ideia. Anos depois, quando ela estiver desistindo da ideia, diga que ela é idiota por ter desistido dessa ideia.

03 - Justifique sua preguiça, incompetência e preconceitos como frutos de sua "experiência" e de seu "phd na escola da vida".

04 - Elogie-se constantemente, especialmente referindo-se a si mesmo na terceira pessoa. Não pare de fazê-lo, independente se o ouvinte é um completo estranho ou se é um parente escutando a mesma gabolice pela quarta vez em menos de duas horas.

05 - Rotineiramente formate o computador da família apagando todos os arquivos de todo mundo da casa, deixando evidente sua consideração pelos demais membros da família, essa instituição tão preciosa.

06 - Doe um tíquete alimentação por mês para algum pobre coitado e depois reclame com Deus pelas coisas não darem certo para você, mesmo você sendo tão generoso.  

07 - Crie regras estúpidas e rituais de humilhação periódicos para poder fortalecer sua posição - ou só pelo esporte mesmo.

08 - Fique amuado se você fizer qualquer coisa (como lavar um mísero prato) e uma fanfarra não tocar em seu louvor e honra.

09 - Em momentos cotidianos, como durante o jantar, conte histórias de tortura e assassinato supostamente perpetrados por você. Contribui tremendamente para um ambiente familiar saudável.

10 - Diga que você tem faro pra bandido e que enxerga malandro de longe, de preferência logo após ter levado um golpe e perdido todo o dinheiro da casa.

11 - Nunca jamais em tempo algum amadureça. Como você poderia melhorar já sendo perfeito?

14 maio 2011

Das Vicissitudes do Ensinar # 1

Personagens:

- Professor (Do Latim: aquele que se soubesse de alguma coisa não tava ensinando)
- Aluno 1 (Do Latim: Ser Sem Luz)
- Aluno 2 (Do Latim: Ser Sem Luz ao Quadrado)


PROFESSOR: Repeat after me "My sister is reading Hamlet"

A1: O que é Hamlet?

A2 (mais rápido que o tempo necessário para se revoltar com a ignorância do outro): É capacete em inglês, SEU BURRO!

PROFESSOR (levemente desesperado): NÃO! Capacete é "helmet". Hamlet é uma peça de Shakespeare.

A1: Quem é Shakespeare?

PROFESSOR (em tom monocórdio): O cara que escreveu Romeu e Julieta.

A1: Ele tá vivo?

PROFESSOR (no mesmo tom monocórdio): O cara que escreveu Romeu e Julieta no século XVI.

12 maio 2011

A Sangue Frio - Desafio Literário 2011



Existe uma farsa pequeno burguesa que pretende que o jornalismo seja imparcial. O que é ótimo na teoria, mas pouco factível. Há pressões externas - o meio que o jornalista se encontra, para quem trabalha, as questões econômicas e políticas envolvidas. Há pressões, digamos, internas - a própria pessoa do jornalista, seu repertório de vida, sua visão de mundo. Acho o gonzo muito mais honesto - embora, claro, não praticável ad exausti (não, não sei se essa expressão existe, mas se não existir acabei de criar).

No entanto Truman Capote, autor de "A Sangue Frio", consegue no seu texto um nível de imparcialidade jornalística realmente impressionante. O livro nos conta o assassinato quase gratuito de uma família na cidadezinha de Holcomb, no Kansas. A história nos apresenta às quatro vítimas e segue a narrativa acompanhando tanto os assassinos quanto os responsáveis pelas investigações.

A maior qualidade no livro, no entanto, é seu puro esmero literário. O primeiro parágrafo é surpreendente, belo, bem escrito. Totalmente inesperada a poesia do texto, bem como o cuidado com uma certa simetria artística e um ritmo muito próprio na leitura. Os personagens são bem desenvolvidos - o autor concede voz a cada um deles, e todos os comentários sobre um personagem partem de um outro personagem - o que contribui para a sensação de imparcialidade, permitindo que o leitor forme suas próprias opiniões.

Avaliação: Definitivamente um copo cheio! (embora não consiga definir exatamente do que)