07 abril 2011

Laranja Mecânica - Desafio Literário 2011


Well, well, well, billyboy, billyboy…

Alex é um adolescente inglês num futuro indeterminado com pitadas de tensão social associada à guerra fria, vivendo numa sociedade mundial estandardizada e estupificada pela televisão e pelos entretenimentos em massa, encaminhando-se a passos largos para o totalitarismo uma vez que cada vez mais pessoas estão dispostas a abrir mão de suas liberdades individuais e dos valores morais, especialmente no que tange à vida humana, em troca de um pouco mais de segurança.

Uma sociedade de crianças sexualizadas cada vez mais cedo, que se vestem com roupas espalhafatosamente coloridas, assim como seus acessórios, cujos pais encontram-se impotentes ou tornam-se impotentes para exercer qualquer tipo de autoridade sobre os filhos, e onde os nadsate ouvem essa véssiche pop de recém-adolescentes gemidas por horrendos eunucos sem iarbos cujos nomes não valem ser lembrados, mas cujos discos fazem as jovenzinhas gritarem histéricas e pularem sem parar onde quer que estejam.

Alex é um tanto diferente dessa casta decaída padrão, apesar dos seus quinze anos. Ele ouve música clássica, tendo particular predileção por Bethoven. E, como uns tantos outros, ele acha horrorshow a boa e velha ultraviolência. Ele goza ouvindo a nona sinfonia enquanto imagina estupros, espancamentos e assassinatos.

Há uma preocupação ininterrupta com a estética e a beleza - o nosso jovem e belo narrador está sempre no rigor da moda, mesmo após toltchocar um tipo como um professor e fazer correr o vermelho, Alex está preocupado se seu volosse não está dessarrumado ou caindo no seu litso.  Uma preocupação absurda, arbitrária e ridícula com a estética. Que tipo de mundo gera esse tipo de adolescente?

Alex tem somente quinze anos, mas as pessoas aos 18 são velhos nesse mundo decrépito e vazio de perspectivas. Nosso, digamos assim, herói tem que acordar cedo para ir a escola e chama suas saídas à noite de Traquinagens Noturnas. Alex abusa sexualmente de duas meninas de dez anos em seu quarto (enquanto ouve música clássica). Espanca pessoas apenas pela diversão, somente para ver o vermelho aparecer como se fosse um velho amigo. Se precisar se locomover, ele e seus druguies roubam um carro.

Até que ele é preso, e após dois anos de cárcere lhe é oferecida a oportunidade de participar de um programa de recondicionamento.

 A linguagem de Anntoni Burges é, junto com sua perspicaz e só um tanto distorcida visão do futuro, o maior trunfo do livro. Narrado em primeira pessoa por Alex, ele escreve numa linguagem cheia de gírias nadsate, ou adolescente, e isso gera um certo ritmo na leitura. Uma recomendação: não leia o glossário, Burges escreve de forma que o texto acaba tornando-se compreensivo de maneira intuitiva, e esse estranhamento no ler é parte da experiência da obra. Associado às gírias Alex usa muitas imagens poéticas e construções frasais rebuscadas.

Ele vai bradar morte e destruição aos quatro ventos do céu contra seus inimigos, estando assim num clima de ódio e assassinato. E nada como um pouco de in-out-in-out. E essa quel toda.

A tensão filosófica do texto segue: Somos maus, hedonistas e anárquicos - o que faço faço pq gosto. No entanto, o homem que cessa de optar deixa de ser um homem.


“O homem que escolhe o mal é talvez de uma certa forma melhor do que aquele a quem a bondade é imposta.”


 É preciso fazer uma nota em relação ao filme. Stanley Kubrick é o cineasta por excelência. Ele dominava a linguagem cinematográfica como poucos. Nunca dirigiu um roteiro original, seus filmes sempre foram adaptações de livros ou contos.

Sua versão de Laranja Mecânica, ganhadora do Oscar e do Globo de Ouro de melhor filme, segue o mesmo padrão visto em O Iluminado, Lolita e 2001. Ele escolhe obras excepcionalmente boas em seus nichos, se mantém fiel e respeitoso ao material original, mas faz cortes e mudanças para que a obra funcione melhor no novo meio, ou seja, no cinema.

Todas as modificações feitas por Kubrick são melhoramentos, considerando o novo meio do filme. A bengala como arma funciona muito melhor como ícone do que a navalha. O visual do rigor da moda de Alex e de seus druguies criado pelo filme é muito mais marcante e forte com seus colants brancos e chapéus coco do que o apresentado no livro – embora as botas, como o protagonista diz a certa altura, sejam indispensáveis para chutar durante a velha violência horrorshow.

O diretor adicionou ainda a cobra, Basil, e o assassinato da mulher com uma enorme escultura fálica (no livro é uma simples estatueta de uma bailarina). Uma das melhores intervenções Kubrickianas é Alex cantar Singing in the Rain durante o estupro da esposa do escritor. Embora a cena seja mais viceral no livro, adiciona uma nuance extra no cinema e dá mais coerência a certos eventos futuros. A outra grande adição, na verdade subtração, de Kubrick é terminar o filme no penúltimo capítulo do livro. Muito mais coerente com o todo da história.

Um livro muito horrorshow meus druguinhos.



Avaliação: Um copo cheio de leite-com! (se bem que, na real, tenha ficado curioso para experimentar o “veterano”, drink descrito no livro como mistura de rum, cerveja e conhaque, com uma pitada de lima na variação canadense. Deve ser coma alcoólico na certa.)

8 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Li esse livro a muitos anos lembro de ter ficado incomodada. Por isso já assisti o filme com um certo pé atrás e não gostei. Vou rever ambos, quem sabe a maturidade melhore minha opinião.
abs
Jussara

...loucos apontamentos disse...

A avaliação por si só já demonstra como a pessoa digere algo. No seu caso Laranja mecânica foi um copo de leite!?(bela referencia ao livro que só lhe deixa mais próximo do personagem principal). Já fomos mais humanos. :P

Vivi disse...

Difícil ler isso sem arregalar os óio...deixa eu voltar para o meu Zezinho de Alencar..hehehe

Show de bola o post, como sempre!

Beijocas

Cristina Tronco disse...

parabens pela resenha! muito bem escrita! fiquei com vontade de ler o livro (e ver o filme) bj

Aline M. Gomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline M. Gomes disse...

Vi o filme na faculdade e achei muito doido.

Muito legal vc ter colocado as diferenças existentes entre livro e filme. Muito interessante.

Ótima resenha!!!

Mônica disse...

Li este livros há muitos, muitos anos atrás, não lembro mais nada, apenas que na época que eu li era um livro polêmico.
Beijos

Mônica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.