16 março 2011

Portões de Fogo - Desafio Literário 2011


Sempre curti a história da Batalha de Termópilas. Tem algo que subjaz na idéia de uma tropa de 300 homens resistindo a um inimigo infinitamente mais numeroso. E resistir usando o terreno como sua única vantagem. Alguém enfrentando uma luta que não pode vencer, realizando um last stand, um sacrifício final em nome de algo maior que si mesmo. Há algo tão fascinante nessa história que quase passa despercebido que os vencidos acabaram por ser lembrados por séculos como os grandes heróis daquela luta.

Apesar de ser um fã moderado de Frank Miller (o cara fez Cavaleiro das Trevas e Sin City, mas também cometeu Cavaleiro ds Trevas 2 e o roteiro de Robocop 2) e estar apenas aguardando Sucker Punch para decidir se gosto ou não do Zack Snyder (a gostosinha de high school musical em cena de dança do ventre - grandes chances d'eu virar o maior dos fãs do cara), não gostei nem da graphic novel nem do filme 300.

Pro meu gosto uma versão excessivamente fantasiosa, implausível e historicamente pouco convincente. E Xerxes parecendo destaque de escola de samba carioca com o enredo "a nação iorumbá num encontro místico de cabral com camões e oxóssi rainha das águas". bom, seja qual for o motivo, 300 não me convenceu. Steven Pressfield, no entanto, é outra história.

Termópilas se traduz como Portões de Fogo - de onde vem o nome do livro. É o local onde Leónidas e seu reduzido grupo de guerreiros espartanos oferecem resistência aos exércitos de Xerxes da Pérsia. A pesquisa histórica é claramente muito bem feita, e serve à narrativa sem se tornar didática.

O livro é escrito como um registro do historiador real persa feito a partir do testemunho de Xeones, um dos 300 e único sobrevivente dentre eles. O livro recria a sociedade espartana, trabalha com precisão e arte todas as forças e motivações que conduziram à batalha. É mais que uma sucessão de cenas de ação.

O grego Xeones faz seu relato diante de Xerxes, o rei-imperador persa, a pedido deste. Xerxes, assombrado pela bravura e pelos feitos dos espartanos, quer ouvir o relato em primeira mão deste soldado, a fim de conseguir, quem sabe, algum entendimento do coração e da mente de Esparta. Xeones, por sua vez, acredita ter sido resgatado do mundo dos mortos por Apolo em pessoa a fim de contar sua história diante do todo poderoso senhor da Pérsia.

A narrativa consegue um ritmo muito próximo da oralidade. A trama se desenvolve com fluidez, com os personagens sendo construindo de maneira gradual e natural no correr do relato.

Uma das melhores caracterizações é exatamente a de Xerxes. Inicialmente o narrador grego precisa estar vendado em sua presença para não conhecer a face do altíssimo, nem lhe é facultado dirigir a palavra diretamente a Xerxes. A primeira menção a Xerxes é um arauto que o anuncia com uma lista de títulos que ocupam dois generosos parágrafos; em toda primeira cena não há nenhuma palavra pronunciada diretamente por ele, nenhuma descrição física. Ele é o rei-deus. No correr da história Xerxes se torna mais do que esse personagem unidimensional. Ele debate, discorda, sofre as perdas, tem acessos de fúria e se angustia.

Aliás, esse é o caminho de todos os personagens nesse livro de Pressfield: começam quase como um arquétipo e vão se tornando tridimensionais ao longo da leitura. O que é uma experiência muito recompensadora para o leitor.

Há ainda que se destacar a sinestesia da narrativa, em especial nas batalhas. Mais do que descrever uma luta em imagens fortes, o autor se preocupa com o odor, o som e a sensação da luta e daqueles que lutam. São, talvez, as descrições de batalha mais verossímeis e envolventes que eu já tenha lido. Pelo menos no mesmo nível, se não superior, do Bernard Cornwell.


"Como alguém conquista o medo da morte, esse mais primordial dos terrores, que habita em nosso próprio sangue, como em toda vida, seja fera seja homem? Cães em uma matilha encontram a coragem para matar um leão. Cada cão sabe seu lugar. Ele teme o cão que lhe é superior e atemoriza os cães abaixo dele. O medo conquista o medo. É dessa maneira que nós, espartanos, fazemos. Contrapomos ao medo da morte um medo maior: o da desonra. Da exclusão da matilha."


Avaliação: um odre de vinho cheio em libação a Zeus Trovejante! 

5 comentários:

Vivi disse...

Assim como você adoro estes estilos com herois, sacrificios e etc.
Porém diferente de vc eu adorei 300 achei uma abordagem nova para o estilo e, não sei se pelo fato de contar com Gerard Butler e Rodrigo Santoro, eu me encantei com tudo.

Beijocas

Mi Müller disse...

Báh adorei tua resenha e fiquei com vontade de conhecer este livro, nunca li nada relacionado a este episódio e me conhecendo já sei que vou me jogar com tudo na pesquisa. Parabéns pelo ótimo texto.
estrelinhas coloridas...

...loucos apontamentos disse...

300 é legal. Vc é chato. Mas tava louco pra ler esse livro agora um pouco mais. Vai ser meu. hehehe. Abraços.

Lully's disse...

Eu não sou muito fã do gênero, mas acho interessante essas histórias que envolvem os deuses. Achei interessante o que você diz sobre o narrador conseguir fazer "mistério" ao protagonista da história. Como eu disse, não sou fã de histórias ligas a guerras ou a grandes batalhas, mas sua resenha me deixou um pouco curiosa.
Ótima resenha ;)

Vivi disse...

Olha só, rapaz, qualquer livro alcança um realce significativo com as suas resenhas. E olha que eu não sou chegado a esse estilo narrativo. Dou-me melhor na seara de Alencar. ;D

Beijocas