24 março 2011

O Silmarillion - Desafio Literário 2011



Tolkien era um gênio. Um geógrafo impressionante, possuidor de uma cultura tremendamente vasta, e um lingüista nada menos que formidável. Um alcance de imaginação sem igual, ele criava plots incríveis para suas histórias: o retorno do herdeiro do rei para comandar a última aliança de homens e elfos contra o mal revivido, a corrupção da ilha-reino dos escolhidos pelo medo da morte, a batalha nos céus entre um navio voador e os dragões de Morgoth, a queda do reino escondido.

Mas Tolkien não é um storyteller.

Por exemplo, Stephen King normalmente parte das premissas mais ridículas, dos clichês mais antigos ou das propostas mais implausíveis: carro ganha vida e sai matando a galera, lobisomem ataca cidadezinha em noites de lua cheia, um pistoleiro de um reino a muito ido persegue um homem de preto através do tempo e do espaço atrás de uma torre que é o nexo de sei lá o quê para encontrar nem ele sabe o quê no topo da tal torre.

E funciona. Pq King é um contador de histórias. Seus livros são envolventes, despertam empatia no leitor e, em última análise, são divertidos.

Tolkien parte de um material extremamente rico, bem pensado, coeso, genial. Mas - e falo aqui do Senhor dos Anéis e do Silmarillion - as histórias não tem ritmo. Não envolvem. São chatas. E sim, essa é minha opinião.

Diga-se a favor de Tolkien que o Silmarillion não foi escrito com a intenção de ser publicado - segundo afirma Christopher Tolkien, filho do autor e responsável pela publicação do Silmarillion. Sendo um conjunto de "lendas" que contam a história desde a criação do mundo até os eventos narrados no Senhor dos Anéis, aparentemente esse trabalho de Tolkien é o sustentáculo mítico de suas outras histórias que têm lugar na Terra-Média.

O Silmarillion não é recheado de referências à mitologia nórdica, como o povo insiste em dizer por aí. É recheado de referências diretas e indiretas a milhões de coisas. Como já disse, Tolkien tinha uma cultura vastíssima e encontramos no Silmarillion referências à Cabala, ao Egito antigo, ao culto a Moloque, à Atlântida, à mitologia grega e, sim, também, à mitologia nórdica.

E claro, como J. R. R. era um cristão fervoroso, católico praticante e papista, há um carrilhão de coisas inspiradas na tradição judaico-cristã, bem como na teologia, nos patrícios e na escolástica.

No entanto, assim como os detalhes geográficos, tudo isso ao invés de enriquecer a história apenas torna a leitura mais pesada.

O próprio trabalho lingüístico de Tolkien acaba sendo um empecilho à leitura. Na busca por verossimilhança, as línguas criadas por ele usam de prefixação, sufixação, derivação e de estruturas de radicais muito bem pensadas e plausíveis. E isso leva a nomes muito parecidos. O fato de Marian, Mariana, Maria e Marina serem nomes plausíveis e comuns em português não torna o uso deles numa mesma história algo recomendável, pois pode facilmente confundir o leitor. O que acontece (muito além da conta) no Silmarillion.

Diversas vezes você está lendo sobre uma cidade escondida e acha que é sobre outra, ou está lendo sobre esse personagem obscuro com um nome começado com "M" e um "r" perdido no meio, mas na verdade é sobre aquele outro personagem obscuro com "r" no meio do nome iniciado em "M". É Húrin, Túrin e Túmin demais.

O livro não é de todo terrível.

A primeira parte sobre a criação do mundo - puxada em grande parte do livro de Enoque - tem seus momentos. Apesar de, cantiga de criação por cantiga de criação, eu preferir Aslam cantando Nárnia à existência. A idéia do mundo ser criado através de uma música, aproveitada tanto por Tolkien quanto por Lewis, que eram amigos, é derivada da tradição medieval da Divina Harmonia e pode ser rastreada pelo menos até Santo Agostinho.

Ah, na última parte ele conta toda a história do Senhor dos Anéis em menos de 20 páginas! Uma versão bem boa da história, se alguém quer saber minha opinião. Um único parágrafo pra Frodo, e Sam nem é nomeado!

Outro ponto positivo: a peste dançante do Tom bombadil não é citado em nenhum momento.

Enfim, não recomendo. A menos que voce seja muito fã de Tolkien. Ou que a opção seja ler Paulo Coelho. (Se bem que entre "Nas Margens do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei" e o Silmarillion, capaz de eu preferir reler o primeiro).


Avaliação: caneca de café 6/7 vazia (fundamental para se manter acordado na leitura)

8 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Não vou ler, rs
Gostei médio de Senhor dos Aneis e para mim o melhor personagem é Sam, o único que fez o que tinha que fazer!
abs
Jussara

Larissa, Lara, Lalá, .... disse...

Muito legal suas observacoes sobre o Tolkien, eu nao li nada dele, mas pelas resenhas que leio, e' unanime sua chatice.

Karol Albuquerque disse...

É a primeira resenha que leio sobre O Silmarillion que não é escrita por um Tolkien-fanático e o resultado é extremamente preciso. Todas as pessoas que se dignam a resenhar esse livro são cegas quanto aos problemas de narrativa e a confusão que há no texto - as que eu já encontrei, claro.

Enfim, concordo muito com a sua opinião. Parabéns pela ÓTIMA resenha!

Lizzie disse...

eu nunca tinha visto antes alguém resenhar um livro de Tolkien sem enchê-lo de elogios. Ou criticando o jeito dele de escrever. só isso bastou para eu ter amado sua resenha. Só li A sociedade do Anel e gostei da história, mas o jeito que Tolkien escreve muitas vezes chega a ser muito entediante.

parabéns pela resenha o/

Vivi disse...

Bom, nunca li nada do autor, mas de modo intuitivo sempre achei que uma certa chatice pairasse no ar.. quem sabe um dia eu tome coragem para ler algo do autor...De Stephen King, só li Christine...amei na época. Mas evito porque móooorro de medo dessas histórias...rs

Beijocas
Vivi

Anônimo disse...

Opinioes a parte, curti bastante a leitura de O Silmarillion, e acho superior ao Senhor dos Aneis. Gosto bastante de historia, geografia e mitologia, e o livro sugere uma fusao desses campos, sendo bem sucedido nisso, embora a narrativa em si nao apresente coesao necessaria para um romance. Acredito que o livro se assemelhe mais a um livro didatico de historia e geografia da Terra-Media do que a conto isolado, como o SdA, e como tal deve ser estudado/lido com outros olhos. Quanto aos nomes, sugiro paciencia e atencao, pois uma historia com um enredo tao rico merece o minimo de ambos.

Anônimo disse...

Eu sou um fã de Tolkien, e todo comentario que fazer pode ser tendencioso, mas aqui vai.

Acho Silmarillion não deve ser comparado com um romance qualquer da era pop. Comparar Silmarillion com Steven King, Sidney Shelton, John Grisham e outros autores da era dos romances enlatados é muita sacanagem. Tolkien era um lisguita/historiador e suas obras não foram escritas com claro apelo emocional/psicologico que estes e tantos outros autores mais contemporaneos trazem em seus livros. Eu diria que a narração do Silmarillion parece mais com a narrativa dos livros históricos da Bíblia (1 e 2 Samuel, Réis e Cronicas). Quem não gosta de estudar história e preferre obras mais curtas e objetivas certamente não vai gostar das obras de Tolkien.

A intenção dele não era contar uma historia genérica que você esqueçe daqui a seis meses, mas recriar um universo inteiro que levou cerca de cinquenta anos (boa parte de sua vida) para construir.

Além do mais, as obras de Tolkien se constroem em cima de metanarrativas históricas que são na verdade a essencia do genero Fantasy: levar voce a um outro lugar, tempo e realidade. Ninguem lê Tolkien e fica com medo de apagar a luz. Que é justamente o oposto que estes outros autores mais contemporaneos fazem, mesclando elementos de realidade dentro de uma narrativa as vezes familiar ao leitor (quem afinal não fica com medo do pai, após ler o Iluminado).

Não acho que Tolkien seja melhor que estes ou outros autores, mas voce não pode esperar dele a superficialidade de outros autores. Digo isto, pois minha irmã é fã de john Grisham e já leu uns vinte livros dele.

Acontece que Grisham escreve um livro por ano, esperando faturar milhões com isso, enquanto Tolkien escreveu as suas obras como um hobby. Ora, não posso então ler Tolkien esperando o mesmo que um autor claramente comercial, como Steven King.

Mas, mesmo assim, ótima crítica. pelo menos voce consegui chegar ao final do livro, coisa que poucos conseguem.

Paulo Rogerio

Neiriberto disse...

Lamento que você tenha perdido o ponto da comparação.

Lamento também que tenha assumido que qualquer um que não gosta de Tolkien é pq não gosta de história, mitologia etc, em resumo, que não tem cultura ou gosto refinado suficiente pra isso - isso é mera arrogância e falta de habilidade de lidar com opiniões diferentes das suas.

E, a propósito, os livros do trecho histórico da Bíblia (que tb inclui Juízes, etc.) são MUITO melhores do que Tolkien, sem exceção.