31 março 2011

A Divina Comédia - Desafio Literário 2011



“Você ri muito lendo esse livro?” – foi a melhor das reações que vivenciei ao carregar um dos três volumes da comédia pra cima e pra baixo no último mês. Então um esclarecimento prévio: o sentido de comédia, usado por Dante Alighieri é como oposto à tragédia. Na tragédia tudo acaba mal, na comédia tudo acaba bem. No caso de Dante, no Paraíso.
A Comédia narra a jornada de Dante, ainda vivo, pelo inferno, purgatório e paraíso. Nessa jornada ele tem como guias o poeta Virgílio, para os dois primeiros trechos da viagem; e Beatriz, sua musa falecida que o guia no trecho celeste e é a responsável pela odisséia de Dante.
A Comédia é um longo poema narrativo, e é um daqueles livros obrigatórios. É um livro moralizante, católico e medieval – o que vai refletir na estrutura e geografia do inferno, purgatório e paraíso, ligados diretamente aos pecados capitais, e às virtudes filosóficas e teologais.
Através do fosso do inferno,da montanha do purgatório e dos céus do paraíso desfilam seres mitológicos, personagens bíblicos, personalidades históricas e pessoas contemporâneas do autor. Além de teologia e mitologia, é muito presente na narrativa a ciência de até então, como geometria, geografia e astrologia. É a obra de uma vida, realizada, certamente, com grande esforço.
As imagens que Dante evoca são muito fortes, e poderosas. Lindas no céu, pacíficas no purgatório e aviltantes no inferno. É uma obra muito visual, especialmente chocante no primeiro trecho da viagem, tendo em vista nosso adjetivo “dantesco”.
A ponte que atravessa os círculos do inferno feita em ruínas pelo terremoto causado na crucificação de Cristo, Lúcifer no centro do inferno com três cabeças a mastigar os traidores, a barca chegando na praia do purgatório, Dante olhando do supremo céu a terra vendo todos os outros céus pelo qual passou, a Rosa mística formada pela “milícia santa que com seu sangue Cristo fez sua esposa”.
Na minha adolescência, nos idos do século passado, eu havia lido uma adaptação em prosa da Comédia, e é preciso dizer que não tem como um texto em prosa fazer jus à epopéia de Dante.
A edição que li é da editora 34 (que tem a the best folha de rosto ever), e é simplesmente perfeita. É uma edição em três volumes, bilíngüe – italiano original e português, em versos que seguem tanto a métrica quanto a estrutura de rimas ( A B A C A C D C etc) do original. O tradutor, Ítalo Eugênio Mauro, levou 12 anos pra completar essa versão da Comédia. As notas e resumos facilitam a leitura do texto, sem se tornarem longos demais, inconvenientes e sem ajudarem em demasia – ou seja, não pressupõe que o leitor seja totalmente tapado como se vê nas notas de outros clássicos por aí.
É preciso registrar que a Comédia exige concentração na leitura e um certo esforço, mas compensa. Pode-se sentir o ritmo da poesia mudando em cada um dos volumes, e alguns dos versos mais geniais que já vi se encontram espalhados nesse livro, em especial no Paraíso.


Avaliação: um cálice três quartos cheio de vinho do porto (como a Comédia, se por acaso você bebe vinho de porto e não gosta, o problema está em você, não no vinho).

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