31 março 2011

Os Irmãos Karamazov - Desafio Literário 2011


“Os irmãos Karamazov [é a] obra na qual [Dostoievski] atinge o auge de seu estilo e onde sintetiza seu pensamento acerca do homem, de Deus e do mundo” – minha amiga filósofa, na monografia fodástica dela que teve Dostoievski como um dos temas.
Primeiro um testemunho pessoal: me enrolei nas leituras desse mês e o Desafio Literário, no tocante aos Irmãos Karamazov, foi na verdade uma maratona literária. Lido em 4 dias! E sim, eu comi, tomei banho e trabalhei nesses dias. Não, eu não dormi, mas dormir é para os fracos.
É tremendamente injusto resenhar Dostoievski, ainda mais Os Irmãos Karamazov. Há três irmãos e um pai relapso. E há um crime, afinal é um romance russo. E há diálogos imensos, afinal é um romance do século XIX. E é tudo tremendamente bom. Não faz sentido falar da trama (das tramas?) pq o mais importante em Dostoievski são os personagens.
Ele os constrói aos poucos, mas todos eles terminam por tornarem-se tridimensionais, com pulsões, desejos, crenças, angústias, paixões, dúvidas, amarguras. Você percebe como cara é um gênio quando lá pras muitas no livro aparece um cachorro. O bendito cachorro, que é um figurante do figurante na história e tem uma participação mínima na mesma, é mais bem desenvolvido, tem mais profundidade e leva a mais reflexões do que os personagens de dezenas de outros livros (se vc considera saga de vampiro viado como livro, pode usar centenas na frase anterior).
Depois de você superar a dificuldade com os apelidos e diminutivos dos nomes dos personagens, que parecem desconexos para nossos olhos/ouvidos ocidentais, tudo vai bem na leitura.
Por maior que seja a variedade de situações na narrativa, ela nunca fica monótnoa. Por mais que o autor demore a retomar a seqüência dos fatos de uma trama, isso não incomoda pq o que se passa ali, naquele momento da história, é igualmente envolvente.
Também acho genial o timing de Dostoiévski, sempre que o leitor tem elementos suficientes para começar a supor algo na trama o autor se adianta e traz essa revelação à tona ao leitor – mostrando, que no final, nossa suposição nem era tão original nem tão relevante como gostaríamos de supor.
Um Dostoiévski vale por um punhado de livros de teologia, filosofia e psicologia juntos. Ler Os Irmãos Karamazov é mais que fruição literária, é uma jornada existencial.

Avaliação: Um porre homérico de Absolut!

A Divina Comédia - Desafio Literário 2011



“Você ri muito lendo esse livro?” – foi a melhor das reações que vivenciei ao carregar um dos três volumes da comédia pra cima e pra baixo no último mês. Então um esclarecimento prévio: o sentido de comédia, usado por Dante Alighieri é como oposto à tragédia. Na tragédia tudo acaba mal, na comédia tudo acaba bem. No caso de Dante, no Paraíso.
A Comédia narra a jornada de Dante, ainda vivo, pelo inferno, purgatório e paraíso. Nessa jornada ele tem como guias o poeta Virgílio, para os dois primeiros trechos da viagem; e Beatriz, sua musa falecida que o guia no trecho celeste e é a responsável pela odisséia de Dante.
A Comédia é um longo poema narrativo, e é um daqueles livros obrigatórios. É um livro moralizante, católico e medieval – o que vai refletir na estrutura e geografia do inferno, purgatório e paraíso, ligados diretamente aos pecados capitais, e às virtudes filosóficas e teologais.
Através do fosso do inferno,da montanha do purgatório e dos céus do paraíso desfilam seres mitológicos, personagens bíblicos, personalidades históricas e pessoas contemporâneas do autor. Além de teologia e mitologia, é muito presente na narrativa a ciência de até então, como geometria, geografia e astrologia. É a obra de uma vida, realizada, certamente, com grande esforço.
As imagens que Dante evoca são muito fortes, e poderosas. Lindas no céu, pacíficas no purgatório e aviltantes no inferno. É uma obra muito visual, especialmente chocante no primeiro trecho da viagem, tendo em vista nosso adjetivo “dantesco”.
A ponte que atravessa os círculos do inferno feita em ruínas pelo terremoto causado na crucificação de Cristo, Lúcifer no centro do inferno com três cabeças a mastigar os traidores, a barca chegando na praia do purgatório, Dante olhando do supremo céu a terra vendo todos os outros céus pelo qual passou, a Rosa mística formada pela “milícia santa que com seu sangue Cristo fez sua esposa”.
Na minha adolescência, nos idos do século passado, eu havia lido uma adaptação em prosa da Comédia, e é preciso dizer que não tem como um texto em prosa fazer jus à epopéia de Dante.
A edição que li é da editora 34 (que tem a the best folha de rosto ever), e é simplesmente perfeita. É uma edição em três volumes, bilíngüe – italiano original e português, em versos que seguem tanto a métrica quanto a estrutura de rimas ( A B A C A C D C etc) do original. O tradutor, Ítalo Eugênio Mauro, levou 12 anos pra completar essa versão da Comédia. As notas e resumos facilitam a leitura do texto, sem se tornarem longos demais, inconvenientes e sem ajudarem em demasia – ou seja, não pressupõe que o leitor seja totalmente tapado como se vê nas notas de outros clássicos por aí.
É preciso registrar que a Comédia exige concentração na leitura e um certo esforço, mas compensa. Pode-se sentir o ritmo da poesia mudando em cada um dos volumes, e alguns dos versos mais geniais que já vi se encontram espalhados nesse livro, em especial no Paraíso.


Avaliação: um cálice três quartos cheio de vinho do porto (como a Comédia, se por acaso você bebe vinho de porto e não gosta, o problema está em você, não no vinho).

29 março 2011

Hoje é a terça da libertação!

Graças a Deus acaba hoje

Risco Laboral


Falar mal do Justin Bieber nem tem mais graça, virou clichê. Uma aluna (do latim, “ser sem luz”) trouxe ao meu conhecimento que JB fez aniversário esse mês. 18 anos com carinha de dez. Medo, muito medo.

Decidi fazer uma atividade de Tributo ao dito cujo, convidando meus alunos (do latim, “ser sem luz”) a reescrever Baby como uma canção-homenagem, dizendo tudo o que eles acham do energúmeno – dependendo do resultado das produções, posto os melhores trechos aqui ou no twitter.

Pra poder fazer a tal atividade, levei a música original para sala. Quando você acha que as coisas não podem piorar, você ouve a porra da música, de verdade, pela primeira vez, e presta atenção no que o bocó tá dizendo. E pior, acabei descobrindo que mr. JB é compositor da música!

Vou pular os versos clichês melosos que eu só não digo que foram mal copiados do Bon Jovi e do Bryan Adams pq acho que esses dois estão em um contexto e arcabouço de conhecimento muito superior ao possuído pela Barbie Andrógena. Vamos nos focar no que a música tem de, digamos, original. Os versos foram traduzidos por minha pessoa, para melhor entendimento geral – foi a tradução mais tranqüila da minha vida, não tem como estropiar ou piorar o material original.

Neguinho chega chegando, começando a música todo na marra:

“Tu sabe que me ama, sei que você se importa/
Tu quer meu amor, tu quer meu coração”

Pq tipo assim eu sou foda, sabe qual é? Sei que tu tá na minha mina.

“E nós nunca nunquinha em tempo algum ficaremos separados”

É, never ever.

Aí vem o momento crucial, onde toda a música e mesmo a existência da biba de topete faz sentido:

“Disse que tem outro, olhando bem dentro dos meus olhos”

Tipo, três versos antes ele era o cara, e agora tomou um toco. A PORRA DA CRIATURA DAS TREVAS É UM CORNO FELADAPUTA E TODAS AS MENININHAS DO PLANETA ESTÃO CANTANDO A DOR DE CORNO DELE!

“Meu primeiro amor quebrou meu coração pela primeira vez”

Bom, a menos que ela vá quebrar seu coraçãozinho S2 frágil mais de uma vez, o que lhe elevaria a categoria de corno bumerangue, se é o primeiro amor, tem de ser a primeira vez que quebra a desgraça desse coraçãozinho. Merecia tá no Big Brother esse guri, quando o Bial fala com um sem-noção emparedado “Estreando no paredão, né?” e larga a criatura do inferno: “é, a primeira vez”.

E vem o refrão, que não merece ser comentado. Pq ele ficou, tipo assim, baby baby baby... Acho que esses são os uivos da dor de corno do moleque castrato. Mr. JB deve estar no guiness, presumivelmente o primeiro ser humano a atingir a maioridade legal antes de passar pela puberdade. (Se bem que teve o golpe que deram no Império na época de Dom Pedro II...)

Nas outras estrofes o menino perde o cabeção e desespera:

“tentei dar uma de sussa, mas tô perdendo você!”

Tá o cacete, já perdeu mané!

Mas pq essa menina foi tão má? Tão cruel abandonando uma alma tão boa, iluminada, cor de rosa e gliterizada? Os próximos versos (e últimos disso aqui que falei demais dessa criatura e acho que vou ter de jogar o teclado no lixo depois de escrever esse texto) dão uma dica:

“Não consigo acreditar que não estamos juntos/
Te compro qualquer coisa, te dou qualquer anel”

Na maior, chama a menina de prostituta e interesseira. E ainda se propõe a realizar atos sexuais da mais profunda depravação com a coitada!

O resto desse lixo de música é tão terrível quanto o começo. E pensar que a gente achava que Menudos, Backstreet Boys e É o Tchan era o fundo do poço.

Moral da história: nenhum trabalho vale certos sacrifícios. Melhor as vezes a política do não ouvi e não gostei. Minha próxima meta de vida é evitar de ouvir “Friday” o máximo possível.




A quem interessar possa, uma análise de outros artistas que abrilhantam a música contemporânea:
Sandy: http://neiriberto.blogspot.com/2009/05/consertos-para-juventude.html
Vitor e Léo: http://neiriberto.blogspot.com/2009/05/fly-butterfly.html

28 março 2011

O Lobo das Planícies - Desafio Literário 2011


Pro bem e pro não-tão-bom, O Lobo das Planícies é um livro cinematográfico. A leitura é ágil e divertida. Os costumes e a cultura da mongólia de séculos atrás dão um colorido peculiar à história, mas nunca comprometendo o entendimento, o ritmo ou a empatia do leitor. É um livro de se ler nas férias de janeiro, deitado na rede. Seria um excelente blockbuster de verão.

Conn Iggulden se propõe a contar em sua trilogia O Conquistador a história de Gêngis Kan. Sendo O Lobo das Planícies o primeiro volume, ele narra a infância e a adolescência de Temujin, e o início de sua idade adulta quando ele decide que será Cã de todas as planícies da Mongólia, o mar de capim chamado de Gêngis.

O livro é extremamente visual, e o corte entre as cenas é muito orgânico. Quase como em um filme, o autor faz os olhos de nossa imaginação moverem-se de um ponto a outro como uma câmera deixando Temujin para acompanhar a súbita disparada pelos campos da menina que ele observava instantes antes.

Devido a essa característica de cinema-diversão, muita complexidade é evitada. A maioria dos conflitos é resolvido com velocidade e as tramas não se arrastam. É comum um personagem explicar pra outro - e conseqüentemente para o leitor - o que vai acontecer em seguida, ou o que esperar de certa ação e do comportamento de certa pessoa na história. E isso mantem a leitura livre de dúvidas e complicações.

O próprio autor reconhece em notas no fim do livro que mudou nomes de personagens, e também os perpetradores do rapto da esposa de Temujin, e mesmo qual foi o irmão do protagonista que o ajudou em uma emboscada crucial na história, tudo a fim de preservar a clareza e simplicidade da narrativa. Esses pequenos desvios não comprometem a diversão, mas o livro tende a ser maniqueísta. Como um bom filme de verão, que todo mundo assiste em certo ano e que depois no máximo rende uma boa Tela Quente.

Bom livro, mas longe de ser essencial. Se tiver oportunidade lerei as continuações - como se tivesse zapeando e acabasse topando com Jurassic Park 3. Mas se não, provavelmente não vou nem lembrar de procurar.


Avaliação: Uma tigela três quartos cheia de airag! (e só um gole de leite de égua misturado com sangue)

24 março 2011

O Silmarillion - Desafio Literário 2011



Tolkien era um gênio. Um geógrafo impressionante, possuidor de uma cultura tremendamente vasta, e um lingüista nada menos que formidável. Um alcance de imaginação sem igual, ele criava plots incríveis para suas histórias: o retorno do herdeiro do rei para comandar a última aliança de homens e elfos contra o mal revivido, a corrupção da ilha-reino dos escolhidos pelo medo da morte, a batalha nos céus entre um navio voador e os dragões de Morgoth, a queda do reino escondido.

Mas Tolkien não é um storyteller.

Por exemplo, Stephen King normalmente parte das premissas mais ridículas, dos clichês mais antigos ou das propostas mais implausíveis: carro ganha vida e sai matando a galera, lobisomem ataca cidadezinha em noites de lua cheia, um pistoleiro de um reino a muito ido persegue um homem de preto através do tempo e do espaço atrás de uma torre que é o nexo de sei lá o quê para encontrar nem ele sabe o quê no topo da tal torre.

E funciona. Pq King é um contador de histórias. Seus livros são envolventes, despertam empatia no leitor e, em última análise, são divertidos.

Tolkien parte de um material extremamente rico, bem pensado, coeso, genial. Mas - e falo aqui do Senhor dos Anéis e do Silmarillion - as histórias não tem ritmo. Não envolvem. São chatas. E sim, essa é minha opinião.

Diga-se a favor de Tolkien que o Silmarillion não foi escrito com a intenção de ser publicado - segundo afirma Christopher Tolkien, filho do autor e responsável pela publicação do Silmarillion. Sendo um conjunto de "lendas" que contam a história desde a criação do mundo até os eventos narrados no Senhor dos Anéis, aparentemente esse trabalho de Tolkien é o sustentáculo mítico de suas outras histórias que têm lugar na Terra-Média.

O Silmarillion não é recheado de referências à mitologia nórdica, como o povo insiste em dizer por aí. É recheado de referências diretas e indiretas a milhões de coisas. Como já disse, Tolkien tinha uma cultura vastíssima e encontramos no Silmarillion referências à Cabala, ao Egito antigo, ao culto a Moloque, à Atlântida, à mitologia grega e, sim, também, à mitologia nórdica.

E claro, como J. R. R. era um cristão fervoroso, católico praticante e papista, há um carrilhão de coisas inspiradas na tradição judaico-cristã, bem como na teologia, nos patrícios e na escolástica.

No entanto, assim como os detalhes geográficos, tudo isso ao invés de enriquecer a história apenas torna a leitura mais pesada.

O próprio trabalho lingüístico de Tolkien acaba sendo um empecilho à leitura. Na busca por verossimilhança, as línguas criadas por ele usam de prefixação, sufixação, derivação e de estruturas de radicais muito bem pensadas e plausíveis. E isso leva a nomes muito parecidos. O fato de Marian, Mariana, Maria e Marina serem nomes plausíveis e comuns em português não torna o uso deles numa mesma história algo recomendável, pois pode facilmente confundir o leitor. O que acontece (muito além da conta) no Silmarillion.

Diversas vezes você está lendo sobre uma cidade escondida e acha que é sobre outra, ou está lendo sobre esse personagem obscuro com um nome começado com "M" e um "r" perdido no meio, mas na verdade é sobre aquele outro personagem obscuro com "r" no meio do nome iniciado em "M". É Húrin, Túrin e Túmin demais.

O livro não é de todo terrível.

A primeira parte sobre a criação do mundo - puxada em grande parte do livro de Enoque - tem seus momentos. Apesar de, cantiga de criação por cantiga de criação, eu preferir Aslam cantando Nárnia à existência. A idéia do mundo ser criado através de uma música, aproveitada tanto por Tolkien quanto por Lewis, que eram amigos, é derivada da tradição medieval da Divina Harmonia e pode ser rastreada pelo menos até Santo Agostinho.

Ah, na última parte ele conta toda a história do Senhor dos Anéis em menos de 20 páginas! Uma versão bem boa da história, se alguém quer saber minha opinião. Um único parágrafo pra Frodo, e Sam nem é nomeado!

Outro ponto positivo: a peste dançante do Tom bombadil não é citado em nenhum momento.

Enfim, não recomendo. A menos que voce seja muito fã de Tolkien. Ou que a opção seja ler Paulo Coelho. (Se bem que entre "Nas Margens do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei" e o Silmarillion, capaz de eu preferir reler o primeiro).


Avaliação: caneca de café 6/7 vazia (fundamental para se manter acordado na leitura)

16 março 2011

Portões de Fogo - Desafio Literário 2011


Sempre curti a história da Batalha de Termópilas. Tem algo que subjaz na idéia de uma tropa de 300 homens resistindo a um inimigo infinitamente mais numeroso. E resistir usando o terreno como sua única vantagem. Alguém enfrentando uma luta que não pode vencer, realizando um last stand, um sacrifício final em nome de algo maior que si mesmo. Há algo tão fascinante nessa história que quase passa despercebido que os vencidos acabaram por ser lembrados por séculos como os grandes heróis daquela luta.

Apesar de ser um fã moderado de Frank Miller (o cara fez Cavaleiro das Trevas e Sin City, mas também cometeu Cavaleiro ds Trevas 2 e o roteiro de Robocop 2) e estar apenas aguardando Sucker Punch para decidir se gosto ou não do Zack Snyder (a gostosinha de high school musical em cena de dança do ventre - grandes chances d'eu virar o maior dos fãs do cara), não gostei nem da graphic novel nem do filme 300.

Pro meu gosto uma versão excessivamente fantasiosa, implausível e historicamente pouco convincente. E Xerxes parecendo destaque de escola de samba carioca com o enredo "a nação iorumbá num encontro místico de cabral com camões e oxóssi rainha das águas". bom, seja qual for o motivo, 300 não me convenceu. Steven Pressfield, no entanto, é outra história.

Termópilas se traduz como Portões de Fogo - de onde vem o nome do livro. É o local onde Leónidas e seu reduzido grupo de guerreiros espartanos oferecem resistência aos exércitos de Xerxes da Pérsia. A pesquisa histórica é claramente muito bem feita, e serve à narrativa sem se tornar didática.

O livro é escrito como um registro do historiador real persa feito a partir do testemunho de Xeones, um dos 300 e único sobrevivente dentre eles. O livro recria a sociedade espartana, trabalha com precisão e arte todas as forças e motivações que conduziram à batalha. É mais que uma sucessão de cenas de ação.

O grego Xeones faz seu relato diante de Xerxes, o rei-imperador persa, a pedido deste. Xerxes, assombrado pela bravura e pelos feitos dos espartanos, quer ouvir o relato em primeira mão deste soldado, a fim de conseguir, quem sabe, algum entendimento do coração e da mente de Esparta. Xeones, por sua vez, acredita ter sido resgatado do mundo dos mortos por Apolo em pessoa a fim de contar sua história diante do todo poderoso senhor da Pérsia.

A narrativa consegue um ritmo muito próximo da oralidade. A trama se desenvolve com fluidez, com os personagens sendo construindo de maneira gradual e natural no correr do relato.

Uma das melhores caracterizações é exatamente a de Xerxes. Inicialmente o narrador grego precisa estar vendado em sua presença para não conhecer a face do altíssimo, nem lhe é facultado dirigir a palavra diretamente a Xerxes. A primeira menção a Xerxes é um arauto que o anuncia com uma lista de títulos que ocupam dois generosos parágrafos; em toda primeira cena não há nenhuma palavra pronunciada diretamente por ele, nenhuma descrição física. Ele é o rei-deus. No correr da história Xerxes se torna mais do que esse personagem unidimensional. Ele debate, discorda, sofre as perdas, tem acessos de fúria e se angustia.

Aliás, esse é o caminho de todos os personagens nesse livro de Pressfield: começam quase como um arquétipo e vão se tornando tridimensionais ao longo da leitura. O que é uma experiência muito recompensadora para o leitor.

Há ainda que se destacar a sinestesia da narrativa, em especial nas batalhas. Mais do que descrever uma luta em imagens fortes, o autor se preocupa com o odor, o som e a sensação da luta e daqueles que lutam. São, talvez, as descrições de batalha mais verossímeis e envolventes que eu já tenha lido. Pelo menos no mesmo nível, se não superior, do Bernard Cornwell.


"Como alguém conquista o medo da morte, esse mais primordial dos terrores, que habita em nosso próprio sangue, como em toda vida, seja fera seja homem? Cães em uma matilha encontram a coragem para matar um leão. Cada cão sabe seu lugar. Ele teme o cão que lhe é superior e atemoriza os cães abaixo dele. O medo conquista o medo. É dessa maneira que nós, espartanos, fazemos. Contrapomos ao medo da morte um medo maior: o da desonra. Da exclusão da matilha."


Avaliação: um odre de vinho cheio em libação a Zeus Trovejante! 

11 março 2011

Rascunho de Stand Up


Nota necessária: O texto abaixo é uma tentativa pueril de fazer humor a partir do meu cotidiano. Alunos que por acaso puserem os olhos nisso: vocês sabem que amo vocês! Tô só tirando onda, mal e porcamente, então sem dramas! E sim, o texto é mais baseado em fatos reais do que eu gostaria...



Ser professor é uma experiência de vida sem igual. Dar aula é uma coisa que muda!

Muda a sanidade. Muda o estado de saúde.

Só não muda a conta bancária.

(essa fica ancorada no mesmo patamar de quase falência pelo resto de sua existência)

Mas tudo bem. Pq ensinar é uma coisa que dignifica a pessoa, né? Tipo assim, edifica.

Eu tinha essa colega pedagoga e um dia a gente conversando eu falei alguma coisa dos alunos e ela:

"Ai, não usa esse termo..."

Termo? Que termo? Eu nem disse nada demais - bem que pensei, mas dizer não disse.

"Aluno. Não fica bem. A gente diz educando, estudante... aluno é uma coisa ultrapassada, até o significado é uma coisa ruim."

Quê que quer dizer aluno?

"Ai, é latim... rs... quer dizer ser sem luz"

...

Então, meus ALUNOS são uma coisa impressionante.

Especialmente aluno de cursinho.

Eu dou aula em cursinho de inglês, desses que o aluno começa quando é um feto na turma de kids e passa anos a fio lá dentro até tá fazendo o adulto-pós-avançado-mega-plus-2!

Acontece essa coisa incrível: os muleque aprende inglês!

Em termos, pq uma boa parte do que aprende tem a ver com os interesses.

O Justin Bieber "canta" em inglês; Os vampiro viado é tudo americano, e por ai vai.

Conjugar o to be é uma epopéia, mas qualquer palavrão em inglês, ou vulgaridades e duplos sentidos em geral, são conhecidos em sua pronúncia e entonação adequadas, uso contextualizado e variações regionais.

"Any of you fuckin'pricks move and I'll execute every one of you motherfuckers! Got that?"

Ótimo é quando se tem aquele aluno nerd, do tipo que joga rpg no computador e não pega ninguém. A criatura é incapaz de dizer "camiseta" em inglês. Mas pergunta pra ele como é que se diz "paladino com espada bastarda +2 para matar verme do inferno"...

Esses alunos, que começam no berçário e seguem estudando no cursinho, quando chegam nos 14, 15 anos sofrem um fenômeno peculiar: o conhecimento de inglês acumulado em oito ou dez anos é muito superior ao conhecimento geral deles, e infinitamente superior ao conhecimento de português!

São capazes de fazer qualquer tradução no puro instinto, mesmo que não tenham a menor idéia do que a palavra signifique em nossa língua pátria.

Por exemplo, tem lá no vocabulário da lição "TANGIBLE"

- Queridos alunos, o que quer dizer tangible?

- Tangível!

- Muito bem! E o que quer dizer tangível?

- É, É... é como galinha! Você faz Xô Xô e ela vai embora! Tem vaca que é tangível e tem vaca que não, umas você tange e vai, outras você tange e as bicha fica no mesmo lugar! Mosquito num é tangível, você tenta e tenta tanger o bicho e ele continua por lá!

Tem mais.

Um texto lá sobre Madre Teresa de Calcutá, com uma foto dela.

Comecei estabelecendo o rapport, relacionando o conteúdo com o conhecimento prévio dos alunos e blá blá blá

- O que vocês sabem sobre Madre Teresa de Calcutá?

- Ela é brasileira? (sim, Calcutá é um assentamento do MST junto ao morro da rocinha, lá em Belo Horizonte, pertinho do mar)

- Ela é um tuaregue?

- UM OQ?

- Olha o pano na cabeça dela!

- Ela era uma freira!

- Ela morreu?

Ao texto, então. Lá pras tantas o texto fala do trabalho de Madre Teresa com as dying people. O que quer dizer dying people?

- Pessoas que estão morrendo.

- Very good! E qual a palavra que a gente usa para pessoas que estão morrendo em português?

- MORRENTES!

- Moribundos!

- Moribundo? Tem esse bicho lá na fazenda, eles sai voando e picando o povo!

- Professor, um moribundo é uma abelha morta-viva? Uma abelha zumbi?

Edifica, né?

Tinha esse guri num colégio que eu trabalhei que no terceiro ano do ensino médio conseguiu ser reprovado em quase todas as matérias. No último ano. De física a português, de biologia a matemática, de religião a educação artística!

Educação artística, véio!

Puta que pariu!

O moço só não foi reprovado em inglês. Por questão de princípio não chuto cachorro morto. E aí, sabe falar to be? Sabe não mas tá quase? dá logo um oito e de boa.

A dona da escola tinha um mote: "Essa não é uma escola de conteúdo, é uma escola da vida!" (voz profética e olhar distante/embevecido sempre ao dizer isso)

Quando ela soube da reprovação desse guri, eventualmente filho de um figurão na cidade, ela começou logo com o discurso de escola de vida e não de conteúdo.

"A gente não pode reprovar o garoto assim, o único na sala dele!!! Ele vai ficar traumatizado! O que nós vamos estar ensinando com essa reprovação?"

Pra começar que vagabundo que não trabalha não come. Eu acho que já era uma lição de muito bom tamanho. Mas ninguém pediu minha opinião.

Então a diretora convocou o meliante à escola e disse: "olha, você vai fazer uma redação nessa folha de papel que eu tô te dando e daí a gente vê o que dá pra fazer por você"

Aquele foi um momento mágico.

Uma experiência mística transcendental, sem precedentes na história da humanidade.

A criaturinha desiluminada garatujou quatro parágrafos num idioma razoavelmente próximo ao português e esse trabalho foi tão impressionante, tão colossal, tão FUDEROSO que ele foi aprovado imediatamente em TODAS as matérias.

De física a português, de biologia a matemática, de religião a educação artística!

Até educação artística!

Mas o mais tocante nisso tudo foi a reunião de professores posterior. A diretora confortando os professores, que não precisavam ficar preocupados com essa aprovação, nem se martirizar, e dar as notas novas sem medo. Pq ela, a diretora, é uma mulher que reza.

Isso mesmo, ela disse: "Eu sou uma mulher que rezo. Todo dia eu falo com Deus. E se eu errasse, se eu tomasse uma única decisão errada na minha gestão, DEUS ME DIRIA!"

Praticamente o telefone vermelho do comissário Gordon!




08 março 2011

Stress

Do Território e do Espaço


No MSN

- a propósito, sou fã de mapas

- sério? pq?

- sei lá, adoro 'rotas' e 'caminhos'

- that's kind o'cute

- vc acha? me sinto segura quando tenho um mapa