28 fevereiro 2011

O Inimigo do Rei - Desafio Literário 2011





José de Alencar é um trauma literário para mim. Minha mãe tem a coleção completa, em encadernação de luxo e papel com gramatura especial. Li muito José de Alencar. E detestei. Acho que se ele tivesse escrito somente Lucíola eu até seria um fã moderado.

Mas ele cometeu todos os outros livros.

Cinco Minutos, que li em voz alta para minha mãe numa manhã entediante que se tornou tragicômica, é tão pateticamente inverossímil e com roteiro tão inconsistente que a crise de riso que tive quando o cavalo do protagonista morre espumando deixou meu maxilar dolorido por duas horas. E nem vou falar do Guarani - digamos apenas que eu concordo com a avaliação que Joaquim Nabuco faz dos protagonistas do livro.

Isso posto, li a biografia de José de Alencar muito mais pelo biógrafo do que pelo biografado. Lira Neto escreveu as biografias de Castelo Branco, Maysa e Padre Cícero - e está agora as voltas com um projeto monumental de biografar Getúlio Vargas em uma trilogia. A escrita de Lira Neto é consistente, encontrando aquele meio termo fundamental entre o entretenimento e o didatismo que torna prazerosa a leitura de uma biografia.

Há muita imparcialidade em seu texto, que nunca fantasia ou enaltece além do devido o biografado. Passei a respeitar ainda mais o autor quando descobri em um texto de seu blog que ele é agnóstico. Não pelo fato em si, que não denuncia nenhuma percepção especial da realidade nem uma inteligência mais esclarecida, mas por sua biografia do Padre Cícero tratar a certa altura de fenômenos alegadamente sobrenaturais sem pender sua escrita nem contra nem a favor.

Lira Neto se apega aos fatos que se depreendem da documentação original e muito da interpretação fica a cargo do leitor. Aliás, outro ponto positivo: Lira Neto faz o que todo bom biógrafo ou historiógrafo deveria fazer, ele vai às fontes originais. Esse garimpo dos documentos originais é uma das maiores qualidades de suas obras.

O livro é tudo que eu esperava: bem escrito, informativo, divertido, educativo.

A vida de José de Alencar se cruza, até por força do tamanho da população brasileira da época e do número absurdamente reduzido de pessoas alfabetizadas, com acesso à educação, com a vida de uma pá de personalidades históricas; e se intercala com uma quantidade de eventos fundamentais em nossa história - sobre os quais, como bons brasileiros, mantemos um conhecimento devidamente superficial.

Por exemplo Dom Pedro II, que normalmente se reduz ao velho barbudo, filho do Dom Pedro I e pai da Princesa Isabel. Dom Pedro II é um personagem imanente no livro, é o rei do título. A verdade é que Alencar não era só inimigo do rei. Ele tinha inimigos a torto e a direito. Muitos ganhos pela tendência alencariana a polarizar, bem como a sua dificuldade ao lidar com críticas e pontos de vista opostos.

José de Alencar foi escritor e político. Suas contendas em momentos históricos que uma vez nos ensinaram na escola sumarizados em menos de um parágrafo sem sal a partir de um livro didático qualquer são extremamente empolgantes. Para mim, como leitor, a dimensão de político e panfletário é o que há de mais interessante no Inimigo do Rei.

Como não há feio sem sua graça, nem bonito sem seu senão, a atuação do deputado, conselheiro e ministro da justiça José de Alencar foi pontuada por altos e baixos extremados. Sendo esse, claro, um juízo arbitrário feito por mim a cento e cinqüenta anos de distância.

Seus discursos contra a corrupção, a discussão da necessidade de existir um órgão regulador dos gastos públicos do país, seu embate quanto à Guerra do Paraguai, sua proposta para a solução da seca no nordeste (sabe aquele projeto de transposição das águas do São Francisco?), sua posição sobre o incentivo público à imigração externa como um acinte aos cofres públicos de então e uma afronta à mão de obra já existente no país, sua revolta com a longa viagem ao redor do mundo de Dom Pedro II deixando o país abandonado; todas essas altercações deixam o leitor mesmerizado torcendo por Alencar. Mas só um pouco.

Toda vez que no correr da leitura eu estava por vencer meus preconceitos contra José de Alencar, devidos à leitura de seus livros, eis que o filho do padre* se envolve em um debate gratuito, ou então luta e esbraveja a favor de posições sexistas, monarquistas e escravocratas que já eram anacrônicas no seu tempo.

Sua curta viagem à Londres de fins do século XIX, e o choque cultural que Alencar enfrentou ali, nos dá a entender que José de Alencar era, em tudo um homem daquele século. No bom e no ruim.

*sim, o pai de Alencar além de senador da república era padre e vivia abertamente amasiado com uma prima com quem teve extensa prole às vistas de todo o império.


Avaliação: cálice de vinho 3/4 cheio (e uma tigela cheia de canja de galinha deliciosa e nutritiva)



3 comentários:

Vivi disse...

Suas resenhas são muito bacanas e divertidas de ler. Como você escreve bem, rapaz. Agora, cá de mim, gostei muito de Cinco minutos e Senhora...hehehe
Senhora, então, reli várias vezes...eu acho que o mulherio aprova.

Beijocas

Palavras Vagabundas disse...

José de Alencar é sempre polemico, não gosto muito da escrita dele, mas gosto de Lucíola e Senhora. Vou procurar essa biografia, gosto do período do império, e uma biografia de alguém que viveu na época deve ser interessante e o autor é muito bom.
abs
Jussara

Évelin disse...

De alguma maneira os livros de Alencar me lembram os filmes adolescentes água com açucar. Mas eu os adoro.Gostei da resenha e espero poder ler essa faceta politica do escritor. Até agora só sabia da sua posição escravocata, a qual me desanimava um bocado.