28 fevereiro 2011

Poemas e Cartas a um Jovem Poeta - Desafio Literário 2011




 
Rainer Maria Rilke me tomou de assalto. Não falo dos poemas, mas das cartas. A leitura da primeira, literalmente, me tirou o fôlego. Como Rilke revela no livro


 
"quase tudo que sucede é inexprimível e ocorre num espaço que a palavra jamais alcançou. Nada mais difícil que definir uma obra de arte"


A leitura de Rilke acalenta, aliena, abandona e aconchega. Tudo de uma vez só. E ainda estou na primeira letra do alfabeto.

Ele vê a vida de maneira sacrificial, onde dor e solidão devem ser acolhidas pois são nossas constituintes.

E o prazer deve ser intenso e vivido como tal - e não como fuga de si.

Morte e vida estão entremeadas, são uma única e mesma coisa. E tudo isso exprimido com uma singeleza e simplicidade sem tamanho.

Rilke escreve verdade.


Avaliação: Como um copo de água transbordante para um sedento

O Inimigo do Rei - Desafio Literário 2011





José de Alencar é um trauma literário para mim. Minha mãe tem a coleção completa, em encadernação de luxo e papel com gramatura especial. Li muito José de Alencar. E detestei. Acho que se ele tivesse escrito somente Lucíola eu até seria um fã moderado.

Mas ele cometeu todos os outros livros.

Cinco Minutos, que li em voz alta para minha mãe numa manhã entediante que se tornou tragicômica, é tão pateticamente inverossímil e com roteiro tão inconsistente que a crise de riso que tive quando o cavalo do protagonista morre espumando deixou meu maxilar dolorido por duas horas. E nem vou falar do Guarani - digamos apenas que eu concordo com a avaliação que Joaquim Nabuco faz dos protagonistas do livro.

Isso posto, li a biografia de José de Alencar muito mais pelo biógrafo do que pelo biografado. Lira Neto escreveu as biografias de Castelo Branco, Maysa e Padre Cícero - e está agora as voltas com um projeto monumental de biografar Getúlio Vargas em uma trilogia. A escrita de Lira Neto é consistente, encontrando aquele meio termo fundamental entre o entretenimento e o didatismo que torna prazerosa a leitura de uma biografia.

Há muita imparcialidade em seu texto, que nunca fantasia ou enaltece além do devido o biografado. Passei a respeitar ainda mais o autor quando descobri em um texto de seu blog que ele é agnóstico. Não pelo fato em si, que não denuncia nenhuma percepção especial da realidade nem uma inteligência mais esclarecida, mas por sua biografia do Padre Cícero tratar a certa altura de fenômenos alegadamente sobrenaturais sem pender sua escrita nem contra nem a favor.

Lira Neto se apega aos fatos que se depreendem da documentação original e muito da interpretação fica a cargo do leitor. Aliás, outro ponto positivo: Lira Neto faz o que todo bom biógrafo ou historiógrafo deveria fazer, ele vai às fontes originais. Esse garimpo dos documentos originais é uma das maiores qualidades de suas obras.

O livro é tudo que eu esperava: bem escrito, informativo, divertido, educativo.

A vida de José de Alencar se cruza, até por força do tamanho da população brasileira da época e do número absurdamente reduzido de pessoas alfabetizadas, com acesso à educação, com a vida de uma pá de personalidades históricas; e se intercala com uma quantidade de eventos fundamentais em nossa história - sobre os quais, como bons brasileiros, mantemos um conhecimento devidamente superficial.

Por exemplo Dom Pedro II, que normalmente se reduz ao velho barbudo, filho do Dom Pedro I e pai da Princesa Isabel. Dom Pedro II é um personagem imanente no livro, é o rei do título. A verdade é que Alencar não era só inimigo do rei. Ele tinha inimigos a torto e a direito. Muitos ganhos pela tendência alencariana a polarizar, bem como a sua dificuldade ao lidar com críticas e pontos de vista opostos.

José de Alencar foi escritor e político. Suas contendas em momentos históricos que uma vez nos ensinaram na escola sumarizados em menos de um parágrafo sem sal a partir de um livro didático qualquer são extremamente empolgantes. Para mim, como leitor, a dimensão de político e panfletário é o que há de mais interessante no Inimigo do Rei.

Como não há feio sem sua graça, nem bonito sem seu senão, a atuação do deputado, conselheiro e ministro da justiça José de Alencar foi pontuada por altos e baixos extremados. Sendo esse, claro, um juízo arbitrário feito por mim a cento e cinqüenta anos de distância.

Seus discursos contra a corrupção, a discussão da necessidade de existir um órgão regulador dos gastos públicos do país, seu embate quanto à Guerra do Paraguai, sua proposta para a solução da seca no nordeste (sabe aquele projeto de transposição das águas do São Francisco?), sua posição sobre o incentivo público à imigração externa como um acinte aos cofres públicos de então e uma afronta à mão de obra já existente no país, sua revolta com a longa viagem ao redor do mundo de Dom Pedro II deixando o país abandonado; todas essas altercações deixam o leitor mesmerizado torcendo por Alencar. Mas só um pouco.

Toda vez que no correr da leitura eu estava por vencer meus preconceitos contra José de Alencar, devidos à leitura de seus livros, eis que o filho do padre* se envolve em um debate gratuito, ou então luta e esbraveja a favor de posições sexistas, monarquistas e escravocratas que já eram anacrônicas no seu tempo.

Sua curta viagem à Londres de fins do século XIX, e o choque cultural que Alencar enfrentou ali, nos dá a entender que José de Alencar era, em tudo um homem daquele século. No bom e no ruim.

*sim, o pai de Alencar além de senador da república era padre e vivia abertamente amasiado com uma prima com quem teve extensa prole às vistas de todo o império.


Avaliação: cálice de vinho 3/4 cheio (e uma tigela cheia de canja de galinha deliciosa e nutritiva)



13 fevereiro 2011

It's being a hard...

10 fevereiro 2011

Um Dia Qualquer no Gtalk




- Como vão as coisas?
- As coisas sempre vão indo, sem se qualificar. É da natureza das coisas. Elas simplesmente vão.
- Pq ainda me surpreendo como vc traz filosofia e poesia pros assuntos mais cotidianos?
- Pq eu sempre surpreendo você. Isso também é da natureza das coisas.

02 fevereiro 2011

Honoráveis Bandidos - Desafio Literário 2011


A história da vida de José Sarney. Passei no Maranhão alguns dos melhores anos da minha vida, e conheci algumas das melhores pessoas da minha vida lá. Então é de consciência tranqüila que digo que mesmo não sendo preciso conhecer o Maranhão para entender o quanto Sarney é nefando, ajuda deveras.

Um trecho do livro fala como o estado, o mais miserável do país em índices de desenvolvimento humano e em quaisquer outras comparações há anos, encontra-se em estado de suspensão por décadas. A extensão da presença dos Sarney é assustadora. E é uma presença paralisante e obscurantista. Infelizmente, muito longe de ser resumida ao estado do Maranhão.

Arnaldo Jabor certa vez se referiu a Sarney como uma “doença venérea da política brasileira”. Não sou fã do Jabor, mas fiquei fã da expressão.

Pessoalmente eu acredito na teoria das filas: o problema não é o político corrupto, é o povo corrupto.

(mais em: http://neiriberto.blogspot.com/2007/05/do-furar-fila_23.html).

Ainda assim o livro de Palmério Dória, que li em dois dias, é perturbador. E dá nojo. E é necessário, fundamental mesmo. Dois pontos que acho que vale a pena comentar:

1 – o lançamento do livro no Maranhão teve direito a barraco perpetrado pela Famiglia. Típico.

2 – É vergonhoso que, embora o livro seja bem pesquisado, a maioria esmagadora das fontes citadas seja a grande imprensa. Atestando apenas a alienação contumaz e a amnésia crônica que constituem o nosso modo de vida civil.

Luis Fernando Veríssimo, creio eu, escreveu em algum lugar sobre essas “terras tropicais que passam da barbárie à decadência sem nunca experimentar o estágio intermediário da civilização”.

Avaliação: Um copo cheio até o topo de um remédio amargo.