18 junho 2009

À Graciosa Ana


Acho muito simplista essa história de que você é o único responsável pelo que acontece na sua vida, e que se vive como se vive pura e simplesmente por conta de suas escolhas pregressas (do mesmo jeito que acho de uma desonestidade brutal ficar se pondo num lugar de vítima do universo e ficar com a raposa da hanna barbera a repetir o refrão ó vida, ó azar...).

Mas sério, dá pra visualizar alguém escolhendo passar fome, ter pais ausentes ou ser abusado quando criança? Não decidimos nosso contexto macro, não escolhemos diretamente nossa estrutura política, a economia global ou uma série de outras coisinhas assim, pequenos detalhes.

(Como os ciclos de ovulação, por exemplo).

O sistema é complexo, e claro que nossas decisões coletivas e, principalmente, suas interações umas com as outras é que acabam por moldar e escrever a nossa história. Não é só o que escolho, mas em que contexto e como eu escolho e como essa decisão afeta aos outros em volta, que por sua vez farão suas próprias escolhas (quando um homem decide, decide por toda humanidade) que irão interagir com as minhas decisões em ondas de conseqüências que, devemos humildemente admitir, são bastante imprevisíveis.

Em geral tendemos a creditar nossos sucessos a nossas boas decisões, trabalho duro e competência estonteante, e, quando as coisas dão errado, desproporcionalmente não assumimos nossa incompetência (que seria o razoável a se fazer), terminando quase sempre por culpar as condições, o acaso, Deus, o azar.

Ou a mãe, em última instância, se você for freudiano – e hoje em dia todo mundo parece ser pelo menos levemente freudiano).

Claro que nossas escolhas são importantes e que precisamos assumir a responsabilidade por nossas vidas. Responsabilidade sobre como agimos nela e, potencialmente mais importante, como reagimos à ela; e responsabilidade sobre o caminho que trilhamos. E não ser levianos com nossas escolhas etc etc e todo aquele papo que tá todo mundo de saco cheio, mas achar que estamos no controle dela (de nossa vida), especialmente dos super-valorizados “resultados”, é pouco mais do que ilusão leviana de segurança.

Seguir as regras não garante o resultado esperado.

Vamos ser honestos, muito do que ocorreu na nossa vida foi incidental, inesperado, arbitrário.

Caótico.

E nem por isso foi menos válido, belo e gracioso.



Keep Your Path Beautiful

Um comentário:

Anônimo disse...

Particularmente sou fã de Saint-Exupéry...