09 maio 2009


06:04

Cheguei há pouco da esbórnia. E foi uma noite regada a O Ar da Montanha (não, não foi uma noite zen de contato com a natureza, é uma dose de absinto com fogo... qualquer dia te mostro como é). E vou ficar acordado direto pq trabalho daqui a pouco.

Então tudo pra me deixar meio filosófico.

Faz uns anos que me pego pensando, volta e meia e de novo, em um verso específico dos evangelhos. Acho, se não me falha a memória ora cansada e etílica, que está lá no meio do sermão da montanha. Cristo fala direto e seco “dá a quem te pede e empresta a quem precisa”.

Tem um fenômeno que eu tenho observado ao longo dos anos que eu achava revoltante, depois irritante e atualmente apenas levemente engraçado (ou irônico). É quando alguém que se pré-dispôs a crer na Bíblia como verdade etc e tal se depara com um texto que não se encaixa na sua própria visão de mundo.

É mais ou menos assim que o sofisma se instaura:

1-      O texto está certo (afinal é minha declaração de fé que o Espírito etc etc).

2-      EU estou certo (afinal estar disposto a admitir erros crassos em sua visão de mundo tão cuidadosamente construída por seu contexto social e lapidada pela rede globo não é uma coisa tão simples).

3-      O texto não se encaixa na minha visão de mundo.

LOGO o texto não deve querer dizer o que eu entendi.

Aí começa um processo de vivissecção do texto para fazer ele dizer o oposto do que ele diz, ou pelo menos fazer ele concordar comigo, por que ora, veja bem etc.

Afinal, não pode ser dar pra TODO mundo que te pede QUALQUER coisa... aí a gente começa com a questão das esmolas, e como isso reforça a má vontade de trabalhar das pessoas (pq é sabido que nosso mercado de trabalho absorve rápida e imediatamente toda mão de obra, especialmente a não qualificada, e todo mendigo mendiga pq é um preguiçoso). Algumas vezes a gente começa a forçar a boa vontade: mas e se um criminoso me pedir pra entregar minha filha nas mãos dele? Etc

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Uma discussão sem fim do sexo dos anjos para mascarar a grande verdade que a minha índole de auto-preservação egoísta e capitalista só quer emprestar pra quem pode me fiar que vai realmente pagar – preferencialmente com juros; e só dá pra quem eu amo ou com quem eu me importo (e o fato de eu ficar puto da vida se mais na frente essa pessoa também não doar a mim de maneira equivalente em nada diminui o altruísmo de minha ação inicial).

Eu tenho pensado, e cada vez mais, que o texto diz o que ele diz mesmo. Pura e simplesmente.  Afinal, se eu dou esmola e o cara é um safado preguiçoso e explorador, o que é que tem? Fui feito de besta, mas e daí? Ou se eu paro pra ajudar alguém e o cara me assalta, eu perdi dinheiro, vou passar um mês complicado mas o que tem isso mesmo? E se meu dinheiro emprestado nunca for devolvido o que tem demais?

Afinal, quantas vidas nós não nos permitimos tocar – pessoas realmente necessitadas – por medo de ter meu status, meus bens ou minha auto-imagem atingida? Acredito cada vez mais sinceramente que ser chamado a segui-lo é ser convidado a viver na eternidade – mas não na eternidade do suposto céu futuro, e sim na eternidade que se inicia no agora e que se desenrola nesse momento diante de nós.

Então, de uma perspectiva eterna, é pior minhas perdas materiais, meu status arranhado ou mesmo minha integridade física comprometida ou uma pessoa que não foi tocada quando precisava pq deixei de estender a mão (de ser a Mão)?

Afinal, se eu der o dinheiro e ele torrar na bebida, eu fui feito de besta, e ele se divertiu a beça. Mas e se eu não der o dinheiro e o filho dele passar mais uma noite de fome?

Quando não conseguimos abrir mão do que possuimos, inclusive de nossas seguranças e relações, não possuimos nada disso de verdade. Somos, na verdade, escravos dessas "posses". 

Acho que tem a ver com desapego. 



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