26 maio 2009

Fly, Butterfly


Uma análise superficial da música “borboletas” da dupla Victor e Leo, como a prematuramente exposta aqui no dia de ontem, pode levar a conclusões injustas sobre o seu compositor, o Venerável Victor. Você pode pensar, por exemplo, que ele é um coió ao afirmar que sabe que está amando mas ainda não sabe quem. Afinal, como a criatura abissal poderia amar sem saber o que ama? Não saber se ama ou não é lugar comum, mas amar sem saber ao quê? Desde a invenção da escrita que se escreve sobre amor, desde que o mundo é mundo que se canta, e se fala e se discute o amor. E nunca. NUNCA se ouviu falar de tal fenômeno, do amor sem objeto. Isso significa que o Venerável Victor simplesmente junta frases ao acaso de maneira razoavelmente harmoniosa contando com a imbecilidade nada latente do seu público consumidor?

É claro que não! Na verdade é genial!

Ele consegue capturar toda a complexidade da alma e do sentir humanos, de uma maneira que nem o mais peripatético dos freqüentadores pederastas da Acrópole foi capaz! O amor sem objeto, difuso, o amor pelo amor! Você, naquela leitura superficial, poderia achar que o moço é meio fraco da cabeça, talvez devido à sua pouca pigmentação capilar, pq em alguns versos afirma que a guria quer voltar pra ele e ele não quer afinal ela chega confundindo todo o momento dele com outra, e no final ele fala que é o jardim da guria e diz que ela que não pode deixar de voltar pra ele, dando a impressão oposta. Confuso? SIM! E a canção é confusa pq nossos sentimentos e nossos relacionamentos são confusos! Somente um verdadeiro poeta captaria esse dizer além do dizer de maneira tão completa.

Mas a piece de resistance, o zênite, o ponto culminante, a prova da irrefutável proeza artística do mestre, o Venerável Victor, vem a seguir.

Por favor, pedimos que os cardíacos e as pessoas sensíveis se retirem por um momento, a exposição a um trabalho de arte tão profundo e intricado pode ter reações biopsicofisiológicas ainda não totalmente estudadas pela medicina contemporânea. Então o verso é o seguinte:

Numa noite estranha...

(É preciso ressaltar a coragem do Venerável Victor. Estranha não é exatamente a palavra mais fácil de rimar. É bem difícil na verdade. Você vai rimar estranha com que? Banha? Banha!? Imagina banha em qualquer música que seja! Entranha? Barganha? Manha – essa até é viável, mas ia ficar muito pagodão. Sanha? Viu? Não é nada fácil.)

Então o Venerável Victor. Ousado. Corajoso. Como somente os verdadeiros artistas e os gênios podem ser, como Picasso pintando as demoiselles (sei lá como se escreve), Beethoven compondo Pour Elyse (ok, depois vc olha no Google e vê como se escreve essa também) ou ainda como Van Gog cortando fora a própria orelha (depois de ouvir por horas a fio a coletânea “o menos pior do sertanejo”), o Venerável Victor prossegue:

Numa noite estranha / A gente se estranha.

Repetirei:

Numa noite estranha   / A gente se estranha

Respirem fundo, muita calma. Por favor, todos contenham a emoção. Produção, ajuda o senhor sedentário da primeira poltrona da terceira fila acho que eles está passando mal.

Viram? Ele, num momento magistral, na hora de tomar a decisão mais difícil, na encruzilhada da poesia, decide rimar estranha com... ESTRANHA!!! Não há aqui uma única gota de ironia ou sarcasmo! Não é só a ousadia de dar a cara a tapa para todos os críticos pretensiosos e com nada melhor pra fazer ficarem apontando o fato de rimar uma palavra com ela mesma, é a coragem de quebrar com um cânone. Quem disse que não pode? Pq tem de ser com outra palavra? O Papa que disse? É um verdadeiro revolucionário iconoclasta da música popular! E não só conseguir rimar uma palavra com ela mesma mas fazer disso uma rima rica! Enquanto Camões matava os neurônios tomando vinho do porto na composição dos Lusíadas, para rimar substantivos com artigos e verbos com pronomes, para que suas rimas fossem ricas, riquíssimas, o Venerável Victor consegue o mesmo intento rimando uma palavra com ela mesma. E de quebra fica rico e famoso.

A simplicidade sempre é o mais difícil.

Bravo!

 

 

 

Nota: rima rica, para quem dormiu nas aulas de literatura, é quando duas palavras de classes gramaticais diferentes são usadas num poema rimando uma com a outra. Se as palavras são de uma mesma classe gramatical, então a rima é pobre. Note que o primeiro “estranha” é adjetivo, qualificando noite, como aquela noite que nas cidadezinhas do Goiás os bares tocam música e não sertanojo; já o segundo “estranha” é verbo, conjugado de estranhar, no sentido aqui de rolar uma tensão agressiva subtextual entre o cara e a ex.

Nota 2: pra quem dormiu durante todo o ensino fundamental e entrou em coma (alcoólico, eu presumo) no médio, classe gramatical é artigo, verbo, advérbio, adjetivo, substantivo etc. Num entendeu? Volta a dormir então...

25 maio 2009

ConSertos para a Juventude

Teve um tempo que meu sonho era conhecer a Sandy. Não, eu não era membro de fã-clube nem essa afirmação deve servir de base para juízos precipitados sobre minha opção sexual. Eu queria conhecer a Sandy para poder pegar na mãozinha dela, olhar fundo naqueles olhos doces e dizer assim, uma oitava abaixo do tom normal e com voz macia: “Sandiléa... (usaria o nome de batismo da moça pq como todo mundo chama pelo diminutivo, usar o nome mesmo poderia criar um falso clima de intimidade) ...Sandiléa, amor da minha vida, farol que ilumina meus passos, luz da minha existência... (pausa dramática, acompanhada de uma inspiração profunda e cara de quem procura a melhor maneira de dizer alguma coisa) ...posso te dizer uma coisa?” E antes que ela respondesse que sim ou que não eu emendaria: “Sandiléazinha do meu coração, o que é imortal não morre no final... NEM NO MEIO NEM NO COMEÇO NEM EM PORRA DE MOMENTO NENHUM! IMORTAL NÃO MORRE!NÃO MORRE!!! POR ISSO QUE É I – MORTAL!!! IIIIIIIIIIII-MORTAL!!! DO VERBO NÃO VAI MORRER!!! EM HORA NENHUMA!!!” É... minha fantasia nunca se realizou, e hoje nem dá tanto tesão assim (não sei se pelo fato da música ter deixado de fazer sucesso ou se pela virgindade mais celebrada da história do Brasil ter ido pras cucuia...) E pq eu vim lembrar disso justo hoje? Minha irmã (sempre ela) tava ouvindo um sertanojo da vida, uma música das borboleta que voltam e vem e não sei oq do jardim, e lá pras tanta a criatura (o cantor, não minha irmã) solta: “Não sei dizer o que mudou/ Mas, nada está igual” Meu São José do Cabeção, dá-me paciência... Deixa eu te ajudar meu filho: se NADA está igual, então é pq TUDO mudou!!! (sem pegar na mãozinha dessa vez...)

22 maio 2009


Estava pensando em algo quase poético e a coisa mais forte que me veio foi a expressão “mulher de malandro”. Vê-se como não-anda a poesia deste que vos escreve.  A quem possa não estar familiarizado com a expressão, mulher de malandro é aquela que o marido vai pra zona, chega em casa fudido fedendo a puteiro com mancha de batom em lugares obscuros vomita no meio da sala e a mulher ainda vai cuidar dele. O cara apronta, faz barraco, bate na criatura, e ela ainda fica lambendo o chão que ele pisa. Pô, absurdo, as pessoas precisam se dar ao respeito valorizar etc etc papo politicamente correto pseudo-moral banal e babaca que a gente repete e se doutrina sem nem perceber.

Pessoalmente, acho que todo mundo é mulher de malandro para alguém (normalmente para alguéns).

Tem um punhado de gente nessa vida a quem, pelas razões mais diversas e incompreensíveis, somos completa, absoluta e totalmente vulneráveis. A criatura pode aprontar o que for e deixar a gente puto. E a gente vai continuar arriado os quatro pneus e o estepe, basta o ser dar um sorriso de canto de boca, fazer cara de cachorro na chuva ou ajeitar o cabelo por trás da orelha como só ela faz que a gente se entrega. É como a porquera da kriptonita. E, claro, não falo aqui só de um contexto romântico. E, claro, que muito dessas relações pode ser uma coisa muito ruim. Mas muito do “ruim” nesse processo vem do desgaste mental de lutar contra essa nossa vulnerabilidade.

Pessoalmente, sou totalmente vulnerável a você. E que se dane.

Driving

(reconstituição)

Neiriberto – across the universe into the wild diz:

Bom te ver por aqui

Arthus diz:

Eu tb, embora seja difícil ver. A estrada continua escura ------------------>

referindo-se a imagem de exibição, reproduzida lá em cima

Neiriberto diz:

Lembra, tua palavra é lâmpada para os meus pés...

Arthus diz:

...e luz para os meus caminhos.

Neiriberto diz:

perfeito. MAS É LÂMPADA NÃO FAROL DE MILHA!!!

A estrada sempre vai ser escura.

Dignidade

a luta constante para não sermos traídos por nossas emoções e conseguir passar pelas relações sem abrir mão de pedaços de nós mesmos

09 maio 2009


06:04

Cheguei há pouco da esbórnia. E foi uma noite regada a O Ar da Montanha (não, não foi uma noite zen de contato com a natureza, é uma dose de absinto com fogo... qualquer dia te mostro como é). E vou ficar acordado direto pq trabalho daqui a pouco.

Então tudo pra me deixar meio filosófico.

Faz uns anos que me pego pensando, volta e meia e de novo, em um verso específico dos evangelhos. Acho, se não me falha a memória ora cansada e etílica, que está lá no meio do sermão da montanha. Cristo fala direto e seco “dá a quem te pede e empresta a quem precisa”.

Tem um fenômeno que eu tenho observado ao longo dos anos que eu achava revoltante, depois irritante e atualmente apenas levemente engraçado (ou irônico). É quando alguém que se pré-dispôs a crer na Bíblia como verdade etc e tal se depara com um texto que não se encaixa na sua própria visão de mundo.

É mais ou menos assim que o sofisma se instaura:

1-      O texto está certo (afinal é minha declaração de fé que o Espírito etc etc).

2-      EU estou certo (afinal estar disposto a admitir erros crassos em sua visão de mundo tão cuidadosamente construída por seu contexto social e lapidada pela rede globo não é uma coisa tão simples).

3-      O texto não se encaixa na minha visão de mundo.

LOGO o texto não deve querer dizer o que eu entendi.

Aí começa um processo de vivissecção do texto para fazer ele dizer o oposto do que ele diz, ou pelo menos fazer ele concordar comigo, por que ora, veja bem etc.

Afinal, não pode ser dar pra TODO mundo que te pede QUALQUER coisa... aí a gente começa com a questão das esmolas, e como isso reforça a má vontade de trabalhar das pessoas (pq é sabido que nosso mercado de trabalho absorve rápida e imediatamente toda mão de obra, especialmente a não qualificada, e todo mendigo mendiga pq é um preguiçoso). Algumas vezes a gente começa a forçar a boa vontade: mas e se um criminoso me pedir pra entregar minha filha nas mãos dele? Etc

¬¬

Uma discussão sem fim do sexo dos anjos para mascarar a grande verdade que a minha índole de auto-preservação egoísta e capitalista só quer emprestar pra quem pode me fiar que vai realmente pagar – preferencialmente com juros; e só dá pra quem eu amo ou com quem eu me importo (e o fato de eu ficar puto da vida se mais na frente essa pessoa também não doar a mim de maneira equivalente em nada diminui o altruísmo de minha ação inicial).

Eu tenho pensado, e cada vez mais, que o texto diz o que ele diz mesmo. Pura e simplesmente.  Afinal, se eu dou esmola e o cara é um safado preguiçoso e explorador, o que é que tem? Fui feito de besta, mas e daí? Ou se eu paro pra ajudar alguém e o cara me assalta, eu perdi dinheiro, vou passar um mês complicado mas o que tem isso mesmo? E se meu dinheiro emprestado nunca for devolvido o que tem demais?

Afinal, quantas vidas nós não nos permitimos tocar – pessoas realmente necessitadas – por medo de ter meu status, meus bens ou minha auto-imagem atingida? Acredito cada vez mais sinceramente que ser chamado a segui-lo é ser convidado a viver na eternidade – mas não na eternidade do suposto céu futuro, e sim na eternidade que se inicia no agora e que se desenrola nesse momento diante de nós.

Então, de uma perspectiva eterna, é pior minhas perdas materiais, meu status arranhado ou mesmo minha integridade física comprometida ou uma pessoa que não foi tocada quando precisava pq deixei de estender a mão (de ser a Mão)?

Afinal, se eu der o dinheiro e ele torrar na bebida, eu fui feito de besta, e ele se divertiu a beça. Mas e se eu não der o dinheiro e o filho dele passar mais uma noite de fome?

Quando não conseguimos abrir mão do que possuimos, inclusive de nossas seguranças e relações, não possuimos nada disso de verdade. Somos, na verdade, escravos dessas "posses". 

Acho que tem a ver com desapego.