12 abril 2009

Snoopy e a Lição das Folhas

Charles Schulz escreveu uma vez uma tirinha do snoopy onde o beagle aparece encostado numa árvore, aparentemente no outono já que se vê algumas folhas caindo.

O cachorro (que consegue ser simultaneamente um filósofo existencial e fenômeno absoluto da cultura de massa) raciocina que, se fosse uma folha, não aceitaria passivamente a sina de cair da árvore.

“eu me agarraria na árvore com unhas e dentes, espernearia e gritaria e me recusaria a cair... faria um grande rebuliço”

Então ele conclui: “eu seria uma vergonha para as folhas”.

Estava conversando com uma amiga essa semana (estávamos trocando figurinhas, histórias motivacionais bonitinhas bacanas pra se usar em palestras) e ela disse que algumas coisas é como tomar uma injeção:

Quando criança você chora, esperneia e faz birra – e termina por tomar a injeção do mesmo jeito. Já adulto, você simplesmente toma a injeção, mesmo não gostando. Qual doeu mais? A conclusão é que aceitar as adversidades com maturidade e graça diminui o sofrimento.

Eu tendo a concordar. Tipo, conscientemente.

Só conscientemente.

Porque por dentro eu grito o tempo todo: QUE GRANDE BESTEIRA!!! Você pára de reclamar da injeção não por ter se tornado mais gracioso ou “maduro”, é só por ter aprendido a se submeter!!!

Ok, é idiota não tomar a injeção (imagina um homem barbado de 1,80 chorando e esperneando pra não ser perfurado pra receber medicação. Seria uma vergonha para as folhas) mas também é simbólico.

Nem sei bem de quê. Provavelmente da submissão, do constante não fazer, do delegar aos outros a responsabilidade por nossas vidas em cada mínima escolha, do viver sem realmente viver, (in?)conscientemente empurrando para um futuro vagamente definido o momento onde seremos plenos, realizados ou onde nos ocuparemos de nosso projeto existencial.

Fico pensando como maturidade está profundamente ligada a idéia de passagem e dos ritos de passagem. Do caçador adolescente sozinho na floresta gelada contra a fera, do caminhar sobre as brasas ou mesmo dos ritos mais bárbaros como começar a trabalhar, passar no vestibular e ter de pagar suas próprias contas (não necessariamente nessa ordem).

A palavra “páscoa” é a base da palavra “passagem” em português. A Páscoa dos hebreus celebra o dia em que o Anjo da Morte passou por sobre as casas dos que haviam tingido com sangue do cordeiro os umbrais de suas portas, poupando-os.

A Páscoa cristã celebra a passagem do Cordeiro da morte para a vida. Mas não somente, é a passagem do medo para a fé, da covardia para o peito aberto do desafio ousado aos poderes constituídos, da vida medíocre para uma vida capaz de mudar e impactar o mundo – ainda que ao custo dessa própria vida.

Mas a passagem da (i)maturidade para a maturidade(?) de nossos dias não tem a ver com isso. Tem a ver com a passagem do espernear para o tomar injeção sem reclamar, dos gritos inconsolados quando não eram justos num jogo no pátio na hora do intervalo na pré-escola a ser ludibriado sem protestar, de ver o mal e aprender a calar.

No hino à nostalgia mais bonito que já ouvi (é impossível ter mais de 25 e não sentir pelo menos um arrepio quando se ouve a música pela primeira vez) chamado “A Lista”, Oswaldo Montenegro nos brinda com a percepção de que

“muitos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você”

6 comentários:

Pink disse...

Hmmmm...Eu esperneei para tomar injeção até os 17 anos, chorava msm, mas ainda hj eu pergunto: -Dr. não tem nenhum outro remédio que possa substituir esta injeção? Demora uns dias a mais? Td bem, eu prefiro o remédio msm assim! :)

...loucos apontamentos disse...

Alguem falou em espernear? nao conheço esse verbo. hehehehe.

é...

saudades...

analia disse...

Muitas vezes me questiono a respeito das "verdades e certeza" que temos socialmente e particularmente. Afinal é vergonhoso ser diferente ou é glorioso ser diferente? pensar diferente? viver diferente...?
Será que seremos folhas menos vergonhosas se simplesmente nos contentarmos em ser iguais a todas as outras cadentes?
Há questões na vida, as quais não temos como fugir.

Diego O'neal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vinicius José (vinimon) 8D disse...

Ser diferente pode tanto ser bom quanto ser ruim!
em um contexto escolar(nesse caso escolas particulares), o objetivo da maioria é ser popular, se destacar(ser engraçado) e a melhor maneira de fazer isso é "zuando" alquem, pisando mesmo, então eles procuram alquem diferente que não se encaixe nisso(mas ainda não é o diferente que queremos), ele acha esse alquem e começa a andar com ele(para "zuar") mas chega um momento que essa pessoa cansa e vai procurar otra turma, eles ficam sem ninquem, é aí que entra o diferente que queremos, eles encontram um cara que não tá nem ligando pra ser popular(nem pra muita coisa também) e começam a andar com ele(para "zuar") porém, quando eles pisam no cara, "zoam" ele, ao invez dele achar ruim, ele da risada junto e as veses até "zoa" a si proprio, fazemdo as ofensas a ele não serem ofensas já que ele não está ligando, o que acaba o tornando popular(no sentido de conhecido), isso chega bem perto do que é ser diferente, não porque essa é uma atitude diferente mas por como essa atitude ocorre, são poucos oa que não se inportam em serem literalmente uma piada ambulante, mas mais que isso uma pessoa da qual as otras gostam e pela qual as outras tem efeto!

Pink disse...

Eu falei até os 17?
Ok, ano passado eu quase saí correndo do hospital. O enfermeiro ficou assustado. Tive uma crise de choro e fui levantar para sair, minha mãe que me segurou. Sim, eu já tinha 29.
Engraçado reler este texto hj, andei fazendo uma análise crítica a minha pessoa, e o texto faz com que eu reveja alguns conceitos já pré-concebidos, referentes as minhas mudanças existenciais, mais duramente as mudanças referentes a submissão.
E sim, toda vez que escuto A Lista me lembro de vc, pq lembro de vc fazendo referência a música e lógico, vejo o filme da minha vida passar, por muitos anos o filme foi igual, ele tem mudado. É o natural, eu sei. É o que se espera ao ouvir a música em diferentes situações.
Enfim...Beijo. Amo tu.