12 abril 2009

Intimidade



Então o Cristo estava morto.

Ele os tinha cativado, impactado, transformado. Pelo pouco que havia de novo no seu discurso – ele só cumpria a Lei e os Profetas, pelo muito que havia de novo em sua prática. Pela imensidão de sua pessoa.

Pelo homem que chorava, e sentia fome, e que com medo pediu pra ser poupado do sofrimento. Que apreciava festas e risos e dança a ponto de ser acunhado de beberrão e glutão. Pelo homem que andava sobre as águas, purificava leprosos, fazia paralíticos andar alegando que essa era uma obra menor pois estava realmente perdoando pecados.

Que veio pra salvar, que quer dizer curar. Que veio para libertar que, no caso dele, significa cativar. Que em pouco mais de três anos de andanças, cruzando pra cima e pra baixo as mesmas estradas empoeiradas, sem ter onde apoiar sua cabeça pra dormir, plantou a semente de um reino. Um andarilho vivendo de doações. Um rei transformando água em vinho.

Devolvendo a visão a cegos por métodos tão heterodoxos quanto encher suas órbitas vazias com lama feita de seu próprio cuspe e do pó da terra. Que soprou, e riu, e chorou, e se afastou quando todos esperavam que não, que negou curas pra realizá-las em seguida, que proibiu a divulgação de seus feitos e os realizou em público.

Que se atrasou quando deveria se apressar, que se afastou quando deveria permanecer. Que nunca deixou de os surpreender. Que curou os nove ingratos junto com o único que voltou para expressar sua gratidão. Que lavou os pés, fazendo o mais humilde dos serviços, os pés daqueles que ele amava, dos que em poucas horas fugiriam, o negariam, e ainda antes o trairia.

Que falou com eles. Que esteve com eles. Comeu, dormiu, bebeu, riu, se emocionou. Conheceu suas sogras, almoçou em suas casas, compreendeu suas dúvidas, alimentou suas esperanças. Trouxe vida, e vida em abundância. Que insistiu em falar mesmo sabendo que não era totalmente entendido. Que insistiu em amar, mesmo quando ameaçavam apredejá-lo.

Que andava com prostitutas, e ladrões, e terroristas, e corruptos. E com crianças, e mulheres e donas de casas, e lavradores, e pescadores, e sacerdotes, e membros do conselho. Ele era o ungido de deus, o messias, o cristo, aquele que foi escolhido, aquele sobre o qual repousava o Espírito. E ele estava morto.

Despido em público, chicoteado muito além da punição usual. As nove cordas do chicote romano zunindo no ar, os nove ossinhos e pequenos ganchos de metal em cada ponta cravando-se na pele castigada, fazendo com que ela fosse arrancada quando o centurião ergue-se o braço pro próximo golpe.

Ele, que lhes deu esperanças, além de qualquer esperança. Um manto posto sobre suas feridas abertas – somente para ser arrancado em breve reabrindo todas as chagas, dando vazão livre ao sangue. A coroa fixada em sua cabeça com golpes de madeira. Os xingamentos e os cuspes e a zombaria: os olhos atados, as pancadas e a zombaria: és o filho de deus, então adivinha quem te bateu?

Como a zombaria: pendurado nu na cruz, pregado pelos pulsos, a margem da maior estrada que levava a maior entrada da maior cidade da nação, no momento de maior afluência popular, a zombaria: não queria nos salvar? Pq não desce agora e salva a si mesmo?

Ele sabia do que aconteceria. Os avisou vez após vez após vez, embora seus avisos caíssem em ouvidos moucos. Ou talvez em ouvidos que não quisessem escutar. Não posso culpar Pedro por se recusar a imaginar (por ser incapaz de conceber?) aquele que ele tinha visto falando com o Próprio Deus transfigurado em luz e glória em tal estado de fragilidade e humilhação.

Então, ele sabia. E o que escolhe fazer? Ele escolhe jantar com seus amigos mais próximos. Escolhe estar com eles. Compartilhar com eles do pão e do vinho – o que era exatamente o que se devia fazer em qualquer dia normal de páscoa, e eles estavam em Jerusalém para a Páscoa. Ele não fez um grande evento, ele jantou com seus amigos.

Como sempre. O milagre da intimidade. Do discípulo que se sentia a vontade pra ficar recostado sobre o peito do mestre. Ouvindo seu coração bater. Comendo do mesmo pão, bebendo no mesmo cálice.

E então, ele estava morto.

E eles estavam sós. Sós como o haviam deixado no fim. E dois discípulos sem nome, massacrados pela dor da perda daquele que amaram, soterrados pela agonia de ver seus sonhos e esperanças que haviam sido elevados a alturas inimagináveis nos três anos anteriores simplesmente despedaçados, sufocados pelo sábado castigante que os obrigou a ficar em Jerusalém no dia seguinte ao assassinato do seu mestre – tornado maldito por ter morrido no madeiro, desciam então no domingo para Emaús.

Um lugarejo distante poucos quilômetros a noroeste de Jerusalám – em torno de onze. E eles conversavam pelo caminho, questionando os eventos dos últimos dias. E houve um encontro. Como quando Zaqueu foi visto pendurado na árvore, como quando os sete demônios foram expulsos de Madalena, como quando ela tocou tão somente tocou na orla do seu manto, como quando os pescadores lançaram as redes de uma noite inteira de trabalho infrutífero e quase não as conseguem recolher com o peso dos peixes que se emaranharam nelas, como quando a mulher foi num dia comum pegar água no poço e ofereceu gentileza a um peregrino estrangeiro, como quando um centurião reconhecendo a indignidade de sua casa confiou numa palavra, como quando houve esse encontro.

E ele caminhou (mais uma vez) com eles, compartilhando a camaradagem das estradas e (mais uma vez) aqueceu seus corações, dissipando (mais uma vez) seus questionamentos mostrando como toda a infâmia de Jerusalém era também Graça. Por nove ou dez quilômetros eles andaram juntos. Mas eles não foram capazes de reconhecê-lo, ainda que mais tarde pudessem perceber como sua companhia era, enfim, Sua companhia.

Eles não o reconheceram quando ele lhes explicou a Lei e os Profetas e os seus cumprimentos, nem quando caminharam juntos na estrada poeirenta, e quando o convidaram a entrar na sua casa ainda não o tinham reconhecido. Não foi quando fizeram as oblações rituais, nem mesmo quando o chamaram pra jantar.

Eles o reconheceram na intimidade do partir do pão. No pequeno milagre do cotidiano, o convidado fazendo as honras, partindo o pão, exatamente como deveria ser. E eles o reconheceram. Supra-naturalmente, talvez, mas muito mais provavelmente por um trejeito, um acento na fala, um sorrir com o canto da boca.

Então ele não estava mais lá.

Então ele estava para sempre lá.

Com eles.

Mais uma vez.

Um comentário:

Anônimo disse...

... e tu não vai escapar não ...
(dion)