22 fevereiro 2008

Mais do Mesmo


Alguns teólogos, tratando de escatologia*, afirmam que a História é cíclica e espiral: os mesmos padrões irão aparecer e reaparecer de forma cada vez mais intenso, até o grande clímax final quando todo olho O verá e os seus se esconderão e o mar será sangue e as estrelas vão cair etc etc

Tudo, seria uma forma de dizer, acaba se repetindo. Como a moda, as sogras e as novelas das sete. Só que cada repetição seria um pouco mais intensa, mais dramática. Ou simplesmente pior (esse é o caso das novelas).

Devo estar ficando velho (definitivamente se se tem idade para perceber padrões repetitivos em sua vida se está velho de alguma forma).

Claro que pode ser pior.

Tudo sempre pode ser pior, a não ser, talvez, pela seleção dos melhores momentos dos teletubbies.

Pode ser pior, por exemplo, quando se percebe que os filhos estão reprisando as histórias dos pais. E muitas vezes os pais estão exercendo o papel que antes foi dos seus próprios progenitores... e isso não leva a nenhuma lasquinha extra de empatia ou compreensão.

Os psicanalistas, provavelmente – nunca se sabe como essa seita estranha se comportará exatamente, perguntariam o que estamos realmente buscando; que desejo insatisfeito busca sua saciedade através desses padrões.

Talvez um existencialista entenda que estamos escolhendo viver as mesmas coisas e contar as mesmas histórias – e que podemos simplesmente escolher diferente.

[ ] trata inúmeras vezes de voltar a ver. De restaura vista dos cegos. Do povo que vivia em trevas. De véus que se rasgam. De escamas que caem. De rupturas - de diversas formas de rupturas.

Sua vinda é ruptura com o carma, com a lei, com as expectativas. A sua volta, então, é ruptura com a própria história e a realidade.

Com todo e qualquer padrão. Ou ciclo.

Redenção é ruptura.

And I only have a redemption song.




*Em teologia, escatologia é a doutrina que trata das últimas coisas, como apocalipse, inferno, juízo final. Essas coisinhas.

17 fevereiro 2008

Nômade


Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, divide a humanidade em dois arquétipos. O homem nômade e o homem gregário.

O gregário precisa do lar, do solo, do seu lugar e referencial. Onde quer que esteja longe de sua terra, ele nunca estará em casa.

O nômade, além do desapego às coisas materiais constituintes do lar e da identidade, para Sérgio, está sempre em casa. Onde quer que ele esteja.

Não está posto ali – talvez Sérgio fosse gregário, então não tinha a experiência em primeira mão (ou talvez não estivesse nem aí pra isso) – é que a saudade é um elemento constituinte do nômade.

Ele vai sentir saudades, sempre. E todo tempo. E isso não vai passar, vai apenas ser uma coisa que está lá, e ele acaba aprendendo a viver com isso. E a se sentir grato.

Pq saudade é também um privilégio – o privilégio de ter gente tão boa por aí que vale a pena sentir a falta dessas pessoas todos os dias.

Por toda a vida.

Mito da cura geográfica


Não, a gente não muda de cidade, estado ou país pra resolver os problemas. Pelo menos não os importantes (dinheiro e faculdade não são “problemas” importantes).

Nossos “problemas”, em sua maioria, são estruturais, são nosso conteúdo próprio. E mudar de lugar dificilmente terá um impacto significativo sobre eles.

Um idiota em Itabuna permanece um idiota em Cingapura. Talvez com mais charme, e um tom um tanto exótico, mas basicamente um idiota.

A mudança, no entanto, é sempre uma oportunidade de rever, reavaliar, reestruturar. E tem, claro, um conteúdo simbólico (como o encerramento de uma fase ou um rito de passagem) que não pode ser desconsiderado.

No entanto, se esse momento não for “usufruído” pelo idiota em mudança, ele continuará sendo um idiota igual, sem ter ganho nada de novo, nem aprendido nada.

Talvez somente um sotaque novo.

PS - Um atirador de livros também permanece um atirador de livros. Mas talvez ele taque outras coisas nas pessoas dependendo do lugar. Filhotes de foca se estiver num pólo, talvez...